quinta-feira, 20 de agosto de 2015

meia-idade

É patético de ver aquele espectáculo. Cansativo até. Todos ali predispostos a desvendar a perfeição de que já foram feitos, há muitos (muitos) anos. Vivendo naquilo meses e meses de exaustiva repetição. Olha eu, como já fui. Olha eu agora, como sou hoje. Tornam-se, assim, cúmplices das suas melancolias, repartindo-as uns com os outros, expondo-as como se fosse vaidade (vaidade de quê?) o que os leva a fazê-lo daquela forma.

- Que bonita rapariga!
- Sou eu.
- Não! Não pode ser. Foste assim?

E ela, que mal sobrevive aquilo, quase em lágrimas, envergonhada do passo em falso que deu ao mostrar assim ao mundo a sua actual feiura. Como se fosse uma montra o espaço que os acolhe, ei-los sentados junto ao vidro, à espera do que não virá. Mostram as belezas que já foram em contraste com os camafeus (e os canastrões) em que nos tornámos. Meses e meses naquilo. Quem mal repare é bem capaz de nem perceber porque o fazem, a intenção que os anima, ou, vá lá saber-se, onde querem chegar e não chegam.

Enfim! Não param de me surpreender as variações sobre o masoquismo de que são feitas certas vidas, de certas pessoas, cegas à imagem a que o tempo as transmutou. Ignorando que há coisas (tantas) que é melhor esquecer que recordar.


Ou, como  diz um dos deuses com os quais partilho estas (e outras) confissões - é a meia-idade.  Coitados de nós. 

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