É patético de ver aquele espectáculo. Cansativo
até. Todos ali predispostos a desvendar a perfeição de que já foram feitos, há
muitos (muitos) anos. Vivendo naquilo meses e meses de exaustiva repetição.
Olha eu, como já fui. Olha eu agora, como sou hoje. Tornam-se, assim, cúmplices
das suas melancolias, repartindo-as uns com os outros, expondo-as como se fosse
vaidade (vaidade de quê?) o que os leva a fazê-lo daquela forma.
- Que bonita rapariga!
- Sou eu.
- Não! Não pode ser. Foste assim?
E ela, que mal sobrevive aquilo, quase em lágrimas,
envergonhada do passo em falso que deu ao mostrar assim ao mundo a sua actual feiura.
Como se fosse uma montra o espaço que os acolhe, ei-los sentados junto ao vidro,
à espera do que não virá. Mostram as belezas que já foram em contraste com os
camafeus (e os canastrões) em que nos tornámos. Meses e meses naquilo. Quem mal
repare é bem capaz de nem perceber porque o fazem, a intenção que os anima, ou,
vá lá saber-se, onde querem chegar e não chegam.
Enfim! Não param de me surpreender as variações sobre o
masoquismo de que são feitas certas vidas, de certas pessoas, cegas à imagem a que o
tempo as transmutou. Ignorando que há coisas (tantas) que é melhor
esquecer que recordar.
Ou, como diz um dos deuses
com os quais partilho estas (e outras) confissões - é a meia-idade. Coitados de nós.
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