sábado, 8 de agosto de 2015

sofridas e frustradas satisfações

Ela deve ter começado de pequenina a gostar de tintas, telas, tecidos, texturas. Ao longo da adolescência, mais pela prática ocasional do que por via de orientada formação, continuou ligada aqueles materiais. Não muito, só mesmo o indispensável. Comprava-os, experimentava-os, estragava-os. Mais tarde entrou para o ensino onde terá aperfeiçoado parte do pouco que até ali aprendera. Pelo meio conheci-lhe alguns propósitos de negócio, todos mal sucedidos diga-se, como quem tentava fazer disso um modo de vida. Até que, há uns anos, a sua imprevista saída da cidade a acabou por integrar no meio humilde da província onde a vim reencontrar. É lá que me apercebo como o seu curriculum cresceu, tal qual os estados de delírio a que as febres altas (e as frustrações, ao que parece) nos conduzem. Tornou-se directora disto e daqueloutro, presidenta do que mais possam imaginar, laureada com prémios concedidos a méritos tão duvidosos como a cegueira e o bom gosto de quem os atribuiu. Hoje, pouco mais é que a  imagem de marca dos desenganos a que a vida nos conduz quando a levamos fútil e sem outra chama que não seja a ostentação. Onde quer que a veja é certo que exibirá, atrás de si, a cauda de cometa daquilo a que pomposamente chama a sua vasta obra. Subprodutos do que se esforça por plagiar, manipulações contranatura de peças e técnicas que resultam cândidas de infantilidade, inocentes de habilidade. Radiosa é como a encontro sempre que acidentalmente nos cruzamos. Trocamos dois beijos, perguntamos se está tudo bem, uma frase sobre as famílias e, à primeira deixa, eis que já me fala de si, como quem dá a saber que, mercê do estatuto artístico da talentosa criatura que tenho na frente, talvez não fosse despropósito solicitar-lhe um autógrafo. Finalmente, em jeito de despedida, ainda me informa do local, dia e hora, onde irá decorrer mais uma das suas exposições. E eu, não fora ser já tão tarde, também estive vai não vai para lhe dizer, por entre (outra vez) os beijos de adeus, oxalá encontres o que procuras. Um dia, quem sabe?!

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