O que me atrai ao campo é coisa pouca. Bens que a
minha mãe e os meus avós (da parte dela) me deixaram, quase nada de valor mas
muito de importância pelo mundo enorme de generosidade que contêm dentro deles.
Da parte do meu pai (e das suas origens) o legado foi nenhum. Uma casa que,
quando lá passo perto, no alto da estrada, confirmo sempre se ainda não
desmoronou por completo, a qual, fruto da vontade arbitrária e senil de um
primo (um palerma, coitado), apodrece em ruínas, condenando toda a família à
vergonha (e tristeza) de não saberem honrar os seus antepassados. Nem que fosse
assim, mantendo de pé o pouco (que é tanto) que lhes deixaram. Dali a única dignidade
esperada é a derrocada final que, essa sim, possa conferir a todos nós (e somos
já bastantes) a consciência descansada de quem não foi capaz de melhor. Mas
voltemos ao que aqui me traz que, isso sim, possui valor por comparação com
este nojo existencial.
O que me atrai ao campo, dizia, para lá do gosto em
cuidá-lo, bem se vê, é uma consolidada vontade de deixar aos meus netos,
naqueles metros de terra, um pedaço de história que me defina. Só por isso
tenho levado parte da vida, solitário, a cuidar de telhados, paredes e muros, árvores,
algumas das quais plantei, e de pedras que afasto e junto em prol do ingénuo propósito
de, quem sabe, um dia os poder levar a pensar: o nosso avô é que as pôs (e
deixou) aqui.
Tem sido assim que me tenho mantido preso ao
passado que outros me deixaram, por certo com outros intentos, e que me foi outorgado
com a condição de herdeiro.
A herança é uma figura de estilo, sei-o bem, que
nos leva a fazer dela o que a vida (e a recordação) daqueles que estão na
sua raiz nos impõe. Uns cospem-lhes em cima, são-lhes indiferentes, deixando
que se fundam no rótulo que lhes atribuo – desmazelados – a consideração que
lhes têm, outros, fazem dela a estátua erigida a título póstumo.
É por isso que, sendo tão pouco o que faço pela que
me coube, ao olhar em volta e perceber o desleixo e o descuramento a que os
outros destinam as suas, não deixo de sentir que lhes estou grato e os
considero por não terem abandonado ao desprezo o que também antes receberam.
Ainda assim, perverso como é o destino quando lhe
dá para escrever torto o que tanto fazemos questão de manter aprumado, não
deixo de temer, confesso, o que me espera de castigo quando for eu a deixar aos
meus o pouco que lhes guardo.
É que, a avaliar pelo que me mostram na forma como
cuidam o que é já seu, não me sobram muitas dúvidas que o fim da consideração
estará para breve.
Esta acaba por ser, afinal, a razão única porque
espero que com a minha partida, os que deixo e me sucedam vendam (nem que seja
a pataco) o que não saibam ou não queiram cuidar. Prefiro considerar essa possibilidade a
imaginar entregue ao desleixo aquilo que tanto empenho (e sacrifícios) terá
custado a quem até ali o fez chegar.
Por isso, mais do que tudo, o que anseio para os
vindouros é que a vida lhes permita a lucidez de não me castigarem a mim,
depois de morto, como vejo outros castigarem os seus, quase parecendo não
perceber como não casa a bota com a perdigota quando em bicos de pés, a quererem
empoleirar-se nos vários pedestais a que se esforçam por subir, imaginam que
não se note a incapacidade que os tolhe de sequer cuidar do que é seu.
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