quarta-feira, 24 de junho de 2015

a herança (dos incapazes)

O que me atrai ao campo é coisa pouca. Bens que a minha mãe e os meus avós (da parte dela) me deixaram, quase nada de valor mas muito de importância pelo mundo enorme de generosidade que contêm dentro deles. Da parte do meu pai (e das suas origens) o legado foi nenhum. Uma casa que, quando lá passo perto, no alto da estrada, confirmo sempre se ainda não desmoronou por completo, a qual, fruto da vontade arbitrária e senil de um primo (um palerma, coitado), apodrece em ruínas, condenando toda a família à vergonha (e tristeza) de não saberem honrar os seus antepassados. Nem que fosse assim, mantendo de pé o pouco (que é tanto) que lhes deixaram. Dali a única dignidade esperada é a derrocada final que, essa sim, possa conferir a todos nós (e somos já bastantes) a consciência descansada de quem não foi capaz de melhor. Mas voltemos ao que aqui me traz que, isso sim, possui valor por comparação com este nojo existencial.

O que me atrai ao campo, dizia, para lá do gosto em cuidá-lo, bem se vê, é uma consolidada vontade de deixar aos meus netos, naqueles metros de terra, um pedaço de história que me defina. Só por isso tenho levado parte da vida, solitário, a cuidar de telhados, paredes e muros, árvores, algumas das quais plantei, e de pedras que afasto e junto em prol do ingénuo propósito de, quem sabe, um dia os poder levar a pensar: o nosso avô é que as pôs (e deixou) aqui.

Tem sido assim que me tenho mantido preso ao passado que outros me deixaram, por certo com outros intentos, e que me foi outorgado com a condição de herdeiro.

A herança é uma figura de estilo, sei-o bem, que nos leva a fazer dela o que a vida (e a recordação) daqueles que estão na sua raiz nos impõe. Uns cospem-lhes em cima, são-lhes indiferentes, deixando que se fundam no rótulo que lhes atribuo – desmazelados – a consideração que lhes têm, outros, fazem dela a estátua erigida a título póstumo. 

É por isso que, sendo tão pouco o que faço pela que me coube, ao olhar em volta e perceber o desleixo e o descuramento a que os outros destinam as suas, não deixo de sentir que lhes estou grato e os considero por não terem abandonado ao desprezo o que também antes receberam.

Ainda assim, perverso como é o destino quando lhe dá para escrever torto o que tanto fazemos questão de manter aprumado, não deixo de temer, confesso, o que me espera de castigo quando for eu a deixar aos meus o pouco que lhes guardo.

É que, a avaliar pelo que me mostram na forma como cuidam o que é já seu, não me sobram muitas dúvidas que o fim da consideração estará para breve.

Esta acaba por ser, afinal, a razão única porque espero que com a minha partida, os que deixo e me sucedam vendam (nem que seja a pataco) o que não saibam ou não queiram cuidar. Prefiro considerar essa possibilidade a imaginar entregue ao desleixo aquilo que tanto empenho (e sacrifícios) terá custado a quem até ali o fez chegar.


Por isso, mais do que tudo, o que anseio para os vindouros é que a vida lhes permita a lucidez de não me castigarem a mim, depois de morto, como vejo outros castigarem os seus, quase parecendo não perceber como não casa a bota com a perdigota quando em bicos de pés, a quererem empoleirar-se nos vários pedestais a que se esforçam por subir, imaginam que não se note a incapacidade que os tolhe de sequer cuidar do que é seu. 

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