quinta-feira, 4 de junho de 2015

dentes cravados na carne

Fechada a noite até que o dia volte a ganhar os perdidos veios de cor, por aqui me entrego à melancolia das palavras através das quais me esqueço do tempo e em que fico horas. Depois, já bem mais tarde, quando sinto que deixou de me doer a alma, gosto de deixar alinhavado num pedaço de papel os afazeres que me esperam daqui as umas horas, poucas, quando acordar. Umas vezes a lista é feita de compras, café, leite sem lactose, lâminas, flocos de aveia e guardanapos. Outras vezes, de tarefas por cumprir, pintar os candeeiros do jardim, aspirar os carros, podar as árvores, arrumar a secretária. Há anos que uso esta estratégia como receita infalível para a disciplina. E, podem acreditar, nunca falha. Não há memória de uma destas listas ter sobrevivido mais de 48 horas nos meus bolsos. E não é pelo peso, juro. É porque o meu respeito por elas as trata como se fossem um cão. Sempre a morder, sem me dar descanso.  

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