Pode ainda não ser amanhã o dia em que faça o que ando para
fazer há mais de um ano. Digo-o hoje assim, sem constrangimentos, talvez por
saber já que não irei sentir remorsos. Quem anda há tanto tempo a adiar uma
coisa de tão vital importância não sente arrependimento. Só frustração. Talvez
um dia isto me passe. Contudo, sei-o bem, ainda não será amanhã esse dia.
Entretanto, para aproveitar o tempo, talvez vá fazer umas coisas que trago adiadas
desde a adolescência. Uma delas é ver se ainda está comestível a hóstia que uma
vez roubei lá da sacristia. Guardei-a, ainda me lembro, dentro dos Lusíadas,
logo a seguir ao concílio dos deuses, imediatamente antes do Vasco da Gama
receber os mouros e, nunca mais me lembrei de ir ver se ainda está em condições
de me remir de alguns dos pecados que me atormentam. Quem sabe, pode ser que
não se tenha colado às folhas, como elas se colavam ao céu da boca quando as
recebia em comunhão. Na dúvida, o melhor
é manter também esta tarefa em fila de espera. Caramba, nos tempos que correm
uma hóstia não é coisa que se desdenhe. A menos que tenha perdido os poderes
de salvar, ou as vitaminas. Logo vejo.
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