segunda-feira, 2 de março de 2015

a visita

Estou de volta. Fui ver o Sr. Padre Mário ao hospital. Adoeceu de repente. Assim, do nada. Não sei se foi castigo de deus. Há punições iguais às dele por todo lado no quotidiano daquele piso. Na enfermaria ao  lado, disse-me ele, há cinco ou seis. O mais velho tem doze anos, o mais novo apenas quatro. Sabê-lo fez-me doer ainda mais a doença do Sr. Padre Mário. Quando me vinha embora apertei-lhe a mão, com força. Como se quisesse dizer-lhe: coragem. Ele sorriu-me com os seus olhos generosos. Ao mesmo tempo, levando a minha mão ao encontro dos seu lábios, beijou-me a ponta dos dedos. Só depois, à medida que percorro o corredor, percebo que levo comigo, no pensamento, aquele inesperado gesto. E só então, quando o elevador me deixa na cave, mesmo ao lado da máquina onde vou ter de introduzir o cartão do parque de estacionamento, reparo que, do outro lado, entre o quiosque dos jornais e o balcão dos seguranças, fica a capela. Um cubículo apertado, com três bancos corridos, onde já cheguei a ouvir o Sr. Padre Mário falar de deus. Talvez por isso, quem sabe, Ele lhe franqueie as portas do paraíso, agora que parece já tê-lo chamado a fazer a viagem. Nisto, é o ruído metálico das moedas que caem no fundo da máquina, que me desperta. Retire o bilhete, diz-me a voz saída do seu interior, ao mesmo tempo que, no mostrador de vidro, onde antes se lia dois euros e vinte cêntimos, aparece agora obrigado pela visita.  

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