Trago comigo desde os idos anos da
adolescência uma mão cheia de sabores
que, experimentados em diversas circunstâncias da vida, se devem ter alojado na
minha memória duma forma assustadoramente eficaz. Um deles (há muitos outros)
resultou de uma espécie de castigo que o senhor meu pai ao tempo me impôs.
Tratou-se da punição que me foi aplicada por ter reprovado
(por faltas e afins) num dos primeiros anos do liceu. Passei os dois meses de supostas
férias a fazer aquilo que hoje é bem capaz de ser classificado como um crime
social. Ou seja, a trabalhar (pro bono) num supermercado local, de que os meus
progenitores eram associados.
Acho que a expectativa dele, ao fazer aquilo, era
que eu tivesse vergonha. No entanto, está mesmo a ver-se, não tive. Não tive e
ainda hoje me parece que a experiência, mesmo arrumada lá no passado distante
onde ficou, me foi extremamente útil para a vida.
Primeiro, porque foi daquelas penas que não doeu
sequer. Depois, porque com ela aprendi tudo o que não sabia (e que era possível
aprender num lugar daqueles) do sistema monetário ao sistema métrico, ou das
relações humanas à mais habilidosa manipulação comercial. Digamos que fui um
excelente aprendiz do papel que incarnei - o Manelinho merceeiro dos livros da
Mafalda.
- Pode levar
à confiança Dª Francisca que os bolos são todos de hoje – aprendi eu a
dizer com aquele ar da mais inquestionável convicção, incluindo nas palavras ‘todos de hoje’ a dúzia e meia de bolos
que tinham sobrado de ontem.
Ora, acontece pois (como já percebam), que ainda
hoje tenho para com o aludido correctivo, e o contexto em que foi aplicado, uma
postura de agradecido reconhecimento que me é (e será sempre) impossível
iludir.
No entanto, tal como dizia no início, o que aqui me
traz é a panóplia de sabores (e aromas também) que desse tempo retive. A
maioria, é óbvio, provêm da minha confessa gulodice, a qual, fruto da liberdade
de que gozava no espaço comercial em questão, depressa tratei de exacerbar até
ao limite do suportável pelo meu pobre fígado.
É então daí que trago guardado, no meu imaginário
gustativo, um lugar especial ao sabor das bolachas de baunilha, as quais terão sido
o primeiro alvo dos meus ataques de gula. Devo ter comido umas boas caixas (e
quilos) delas, que devorava ao longo dos dias, acompanhadas das, então em voga,
bojudas garrafinhas de Laranjina C. Virei, tenho a certeza, umas valentes
litradas delas.
Claro que, pelo meio deste festim gastronómico, e
para desfastio, eram incluídas generosas, e bem fornecidas, sandes de paio, de
torresmos e de queijos vários, servidas ao sabor do meu crescimento e do
constante apetite que o acompanhava.
Também assim, não há como ocultá-lo, os intervalos
dos meus dias, nos espaços de tempo não dedicados às razias gastronómicas da mastigação,
eram frequentemente complementados com um selectivo raid gourmet aos pacotes de sugus, às caixas de pastilhas
e aos sacos de caramelos.
A minha voracidade era tal que, em casa, às
refeições, até a minha querida progenitora passou a sentir-se apreensiva com a inexplicável
falta de apetite que eu revelava. Nem sei mesmo se não terá chegado a pensar
que pudesse aquele súbito fastio estar associado à eficácia do castigo (pobre
Emília que não merecias um safado de um filho destes).
E no entanto, fosse naquela altura possível
monitorizar o disparo que terá sofrido o dito estabelecimento, no que ao consumo
daqueles específicos bens alimentares diz respeito, e ter-se-ia revelado melhor
negócio a avisada dispensa dos meus serviços, mesmo pro bono, do que suportar o encargo da especialização em sabores e
aromas que por lá fiz, naqueles dois meses.
É que, convenhamos, foi tal a intensidade, que
ainda agora, só de reviver aquele tempo através desta descrição, voltei a
sentir o paladar e acho até que a arrotar às bolachas de baunilha que já não como
há anos. Pudera (esgar de enjoo da abundância).

Sem comentários:
Enviar um comentário