domingo, 15 de março de 2015

bolachas baunilha


Trago comigo desde os idos anos da adolescência  uma mão cheia de sabores que, experimentados em diversas circunstâncias da vida, se devem ter alojado na minha memória duma forma assustadoramente eficaz. Um deles (há muitos outros) resultou de uma espécie de castigo que o senhor meu pai ao tempo me impôs.

Tratou-se da punição que me foi aplicada por ter reprovado (por faltas e afins) num dos primeiros anos do liceu. Passei os dois meses de supostas férias a fazer aquilo que hoje é bem capaz de ser classificado como um crime social. Ou seja, a trabalhar (pro bono) num supermercado local, de que os meus progenitores eram associados.

Acho que a expectativa dele, ao fazer aquilo, era que eu tivesse vergonha. No entanto, está mesmo a ver-se, não tive. Não tive e ainda hoje me parece que a experiência, mesmo arrumada lá no passado distante onde ficou, me foi extremamente útil para a vida.

Primeiro, porque foi daquelas penas que não doeu sequer. Depois, porque com ela aprendi tudo o que não sabia (e que era possível aprender num lugar daqueles) do sistema monetário ao sistema métrico, ou das relações humanas à mais habilidosa manipulação comercial. Digamos que fui um excelente aprendiz do papel que incarnei - o Manelinho merceeiro dos livros da Mafalda.

- Pode levar à confiança Dª Francisca que os bolos são todos de hoje – aprendi eu a dizer com aquele ar da mais inquestionável convicção, incluindo nas palavras ‘todos de hoje’ a dúzia e meia de bolos que tinham sobrado de ontem.

Ora, acontece pois (como já percebam), que ainda hoje tenho para com o aludido correctivo, e o contexto em que foi aplicado, uma postura de agradecido reconhecimento que me é (e será sempre) impossível iludir.

No entanto, tal como dizia no início, o que aqui me traz é a panóplia de sabores (e aromas também) que desse tempo retive. A maioria, é óbvio, provêm da minha confessa gulodice, a qual, fruto da liberdade de que gozava no espaço comercial em questão, depressa tratei de exacerbar até ao limite do suportável pelo meu pobre fígado.

É então daí que trago guardado, no meu imaginário gustativo, um lugar especial ao sabor das bolachas de baunilha, as quais terão sido o primeiro alvo dos meus ataques de gula. Devo ter comido umas boas caixas (e quilos) delas, que devorava ao longo dos dias, acompanhadas das, então em voga, bojudas garrafinhas de Laranjina C. Virei, tenho a certeza, umas valentes litradas delas.

Claro que, pelo meio deste festim gastronómico, e para desfastio, eram incluídas generosas, e bem fornecidas, sandes de paio, de torresmos e de queijos vários, servidas ao sabor do meu crescimento e do constante apetite que o acompanhava.

Também assim, não há como ocultá-lo, os intervalos dos meus dias, nos espaços de tempo não dedicados às razias gastronómicas da mastigação, eram frequentemente complementados com um selectivo raid gourmet  aos pacotes de sugus, às caixas de pastilhas e aos sacos de caramelos.

A minha voracidade era tal que, em casa, às refeições, até a minha querida progenitora passou a sentir-se apreensiva com a inexplicável falta de apetite que eu revelava. Nem sei mesmo se não terá chegado a pensar que pudesse aquele súbito fastio estar associado à eficácia do castigo (pobre Emília que não merecias um safado de um filho destes).

E no entanto, fosse naquela altura possível monitorizar o disparo que terá sofrido o dito estabelecimento, no que ao consumo daqueles específicos bens alimentares diz respeito, e ter-se-ia revelado melhor negócio a avisada dispensa dos meus serviços, mesmo pro bono, do que suportar o encargo da especialização em sabores e aromas que por lá fiz, naqueles dois meses.


É que, convenhamos, foi tal a intensidade, que ainda agora, só de reviver aquele tempo através desta descrição, voltei a sentir o paladar e acho até que a arrotar às bolachas de baunilha que já não como há anos. Pudera (esgar de enjoo da abundância).   

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