Não sei se ela esperava de
mim outra coisa que não fosse o que lhe dei. É mentira, claro, mas aqui dá gosto deixar a dúvida. A razão principal, quando não a única, deve-se á sua
conduta. Certamente com origem na banha da cobra do reiki, em que se diz
especialista, ou numa outra qualquer das crenças irracionais a que chama
terapias, que tem concentradas na ponta dos dedos, mais que no cérebro, que
esse parece trazê-lo vazio. Usando da natureza interesseira que lhe
desconhecia, tal como as outras, pediu-me ajuda. Uma vez. Duas. Três. Concedida
como a dei, com o timbre de competência com que gosto de fazer o que melhor
sei, só me restava esperar que o reconhecimento de um simples ‘obrigado’ viesse
ao meu encontro. Esperei. Esperei. Esperei. Não veio. Levou um ano inteiro sem
vir. Até que, cumprido o ciclo, com o mesmo sentido de oportunidade com que o
fizera das outras vezes, me telefonou. Com pressa. Sem tempo. Repartida entre a
viagem de regresso a casa e mais uma das suas sessões de terapia, com que tanto
cura um cancro como uma unha de pé encravada.
-
Precisava que me ajudasses outra vez, este ano - ouvi-a dizer.
Então,
eu, que antes era estúpido e agora já sou apenas presunçoso, puxando para mim o
mesmo descaro que a vejo usar, disse-lhe:
- Eh
pá, que pena, este ano não vou poder…
E,
tentando por em prática a minha limitada sabedoria, que jamais soube lidar com
estes improvisos, acrescentei:
-
Estou de partida para o Tibete onde vou estar 3 meses, a fazer uma formação em
copos de água, perdão, em homeopatia. Desculpa lá.
É
por isso, e pelo tom desiludido e desgostoso com que de imediato se despediu, que
eu digo que não sei se ela esperava de mim outra coisa que não fosse o
que lhe dei. Desconfio que não.
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