Coisa estranha esta que tenho vindo a reparar, comum a uns
quantos escritores (escritores à séria) que aqui sigo mais de perto, aos quais devoto
a atenção diária de vir ler o que redigem, nos ciberespaços a que emprestam a
mão. Todos contestam a falta de talento literário que os cerca e se
revelam afetados, cagões até, batendo-se por um escrever qualitativo que,
obviamente, é só deles. Comportam-se como se a escrita fosse um exclusivo do
seu ADN, carecendo amiúde de maldizer a dos outros. Senhores com baixíssimo score de humildade expõem nessa conduta a
personalidade fraquita de que são feitos. Mais que isso, obrigam-me, logo a
mim, a dizer-lhes o que se percebe, o que se sente e é suposto. A escrita, como o sexo, é um
prazer íntimo e pessoal que cada um faz como bem gosta ou sabe. Coisa até capaz
de se ir apurando com a prática, como dizem os experts sobre a matéria. São
actos a que não se exige ou critica a qualidade que possam não ter. As
palavras, quando nascem da legítima vontade de as usarmos ao encontro do prazer
que nos dão, não se devem esperar todas elas perfeitos tomos de linguagem,
excelentes obras primas saídas das eruditas mãos dos ‘alunos das Sorbonnes’ que
por aí há. E, se não falo por mim, a quem me sobra em gosto pelas letras o que
me falta em estudos que me permitam dominá-las, digo-o por todos os que
escrevem livremente, na net ou noutros suportes, libertando assim um gozo a que
não se furtam. Assim, deixo aos tais donos da escrita, que tanto tempo perdem a
amofinar-se com os que a não dominam, em vates de grandeza e presunção que só
os desfeiam, a recomendação de que se lixem para a canhestra habilidade (sexual
ou estilo-literária, tanto faz) dos demais. É que, um lobo nunca deve temer que
o confundam com os mascarados que lhe vistam a pele. Nem no Carnaval.
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