Vivo por ele
a grandeza dos dias que me deixou. Nas letras, da sua mão saídas há mais de 100
anos, procuro vestígios do neto que haveria um dia de as reescrever. A escrita
não lhe era fácil. Os calos das mãos a tolher o traço que delas fluía sem
rigor. Um ‘a’ escorreito aqui, para logo outro, tortíssimo, mais à frente, e
outro ainda, tão ou mais diferente dos que o antecederam. Talvez, quem sabe, as
dores a permitirem que a caligrafia dissesse o que as palavras calavam. No
entanto, eu cá continuo. A ver se consigo impor uma nova direcção a estas. Às
minhas. Ao mesmo tempo que manejo as folhas com medo de que não perdurem até eles,
de que não suportem outros tantos anos até que as leiam também, numa noite
assim, de longa espera. Bem antes que o mundo se dê conta dos olhos do avô (eu),
lá onde possa vir a estar, a pedir que lhe perdoem a nostalgia (esta) que lhe pedi
emprestada (a ele) para iludir a esperança de que não se perceba a fraqueza que
me ataca.
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