(Chamei-lhe Miró mas podia chamar-lhe Teco. É-lhe indiferente.)
O pobre felino cedo foi sujeito a castigo, por acção duma dieta (rigorosíssima)
a que a medicina o destinou, mercê de diagnosticados problemas renais aos quais ficou amordaçado pela boca, impedido
daquelas iguarias a que qualquer gato que se preze chamaria um figo. Comida de saco XPTO (vulgo ração) e só dessa. Água
com fartura e beiços lambidos, se lhe sobrasse vontade. Era tudo o que o seu
cardápio permitia.
Há quase 5 anos, na sequência de uns exames
que fez, foi-lhe afinado o diagnóstico com o fatal agravamento dos ditos problemas renais, sem solução médica
possível, disseram-nos.
Foi então devolvido aos donos (um casal de idosos), para que
dele se pudessem despedir, apenas um dia ou dois, não mais que isso, rezava o
relatório de esperança que lhe sentenciava a vida por pouco menos de uma semana.
Seguiram-se então dias (e dias) de uma
liberdade recompensadora, a que nunca antes tivera acesso. Passou a comer de tudo
(tudo o que lhe agradasse, claro) e, decisão dos seus amos, acabaria os seus dias com eles,
recebendo mimos e carinhos até que a anunciada morte o levasse. Ou
seja, a tal entrega no estabelecimento de saúde, para abate, estaria fora de
questão.
E assim vive até hoje. Cinco anos já
passados, acrescentados aos dois dias do prognóstico inicial que o condenava. Há pouco mais de um ano veio cá parar a casa, por morte dos donos, e aqui manteve os mesmos 'maus' hábitos que a prematura sentença de morte lhe concedera. Ração sempre disponível, introduzidas todas as iguarias que o apetite
lhe peça, liberdade de acção dilatada. E, é evidente, voltar ao médico - FORA DE QUESTÃO!
Tem sido assim, sem que isso nos parecesse possível,
que a sua vida se tornou mais um forte abalo no rigor da ciência e na fé médica. Mais
que isso, instalou entre ambos (rigor e fé de um lado, e a realidade do outro) um obstáculo de
descrença que vamos levar anos a digerir.
Quanto ao bichano, trago-o debaixo de olho,
noite e dia. É que, depois de condenado, há 5 anos atrás, a não sobreviver mais de dois ou três dias, já enterrou dois donos e, temo (temo muito, até) que se disponha
a fazer o mesmo com os actuais. A menos que negociemos com ele alguma das 7 vidas que parecem ainda sobrar-lhe.
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