sábado, 8 de março de 2014

miró


(Chamei-lhe Miró mas podia chamar-lhe Teco. É-lhe indiferente.)

O pobre felino cedo foi sujeito a castigo, por acção duma dieta (rigorosíssima) a que a medicina o destinou, mercê de diagnosticados  problemas renais  aos quais ficou amordaçado pela boca, impedido daquelas iguarias a que qualquer gato que se preze chamaria um figo.  Comida de saco XPTO (vulgo ração) e só dessa. Água com fartura e beiços lambidos, se lhe sobrasse vontade. Era tudo o que o seu cardápio permitia.  
  
Há quase 5 anos, na sequência de uns exames que fez, foi-lhe afinado o diagnóstico com o fatal agravamento dos ditos problemas renais, sem solução médica possível, disseram-nos.

Foi então devolvido aos donos (um casal de idosos), para que dele se pudessem despedir, apenas um dia ou dois, não mais que isso, rezava o relatório de esperança que lhe sentenciava a vida por pouco menos de uma semana.

Seguiram-se então dias (e dias) de uma liberdade recompensadora, a que nunca antes tivera acesso. Passou a comer de tudo (tudo o que lhe agradasse, claro) e, decisão dos seus amos, acabaria os seus dias com eles, recebendo mimos e carinhos até que a anunciada morte o levasse. Ou seja, a tal entrega no estabelecimento de saúde, para abate, estaria fora de questão.

E assim vive até hoje. Cinco anos já passados, acrescentados aos dois dias do prognóstico inicial que o condenava.  Há pouco mais de um ano veio cá parar a casa, por morte dos donos, e aqui manteve os mesmos 'maus' hábitos que a prematura sentença de morte lhe concedera. Ração sempre disponível, introduzidas todas as iguarias que o apetite lhe peça, liberdade de acção dilatada. E, é evidente, voltar ao médico - FORA DE QUESTÃO!   

Tem sido assim, sem que isso nos parecesse possível, que a sua vida se tornou mais um forte abalo no rigor da ciência e na fé médica. Mais que isso, instalou entre ambos (rigor e fé de um lado, e a realidade do outro) um obstáculo de descrença que vamos levar anos a digerir.

Quanto ao bichano, trago-o debaixo de olho, noite e dia. É que, depois de condenado, há 5 anos atrás, a não sobreviver mais de dois ou três dias, já enterrou dois donos e, temo (temo muito, até) que se disponha a fazer o mesmo com os actuais. A menos que negociemos com ele alguma das 7 vidas que parecem ainda sobrar-lhe. 

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