quinta-feira, 5 de junho de 2014

Desidério

Desde que o conheço que sempre o vi a fugir das amantes, mais que da família. Inventa ciúmes da mulher, doenças que a tolhem enferma, coitadinha, razões de sobra (e monta) para com elas não passar as noites. Talvez evitando-as mal dormidas, exigentes, cansativas. Outras vezes chega mesmo a reduzir a uns míseros trocos de megera as mercês com que lhes agradece as graças da língua e lhes aquece as ausências da alcova, dizendo-lhes acreditar (confiante, bem se vê), no amor que todas lhe diziam ter. A ele, não aos bens ou aos pechisbeques que, ingénuas, julgavam  extorquir-lhe. E, fugindo-lhes, lá voltava ele a casa, acolher-se no leito nupcial, no conforto e na companhia da (já de certezinha)  adormecida esposa. Sempre foi um bom marido o Desidério.  

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