quinta-feira, 26 de junho de 2014

detalhes de artifício e miséria

Diz-se por aí que se vivem tempos de definição. De redutoras definições, acrescento eu. Sobretudo daqueles que insistem em não se adaptar a esta nova realidade high tech e ainda não encontraram o caminho certo a tomar. 

O tempo dos currículos de contrafacção, usados com o fito de fazer passar os donos por aquilo que não eram (como se a miséria não fosse já suficiente), deu lugar à actual ‘ânsia de mostrar’ que não se compadece com tais ritos de falsa exibição.

Antes, o mise em scene do ‘Dr.’, ou do 'Engº.', ou do 'Prof.', antecedendo o nome dos que queriam passar por eles, fazia de muitos o que as próteses dentárias fazem dos dentes – imitações (algumas bem farsolas, por sinal). Hoje, se dúvidas houvesse, as novas  tecnologias acabaram com elas (mérito quase único que lhes reconheço), impedindo os originais de se confundirem com as reproduções, como acontece com os quadros a óleo e as pérolas.

É que o pão-pão-queijo-queijo da realidade tecnológica tudo mostra, tudo expõe e tudo queima. Já não há pobres cujo espírito se enriqueça com tais embustes. Perdem assim a credibilidade os que antes julgámos doutos, a quem a linhagem da conduta (ou da postura) impede de dizer mais do que aquilo que lhes vemos (ou do que lhes lemos, tanto faz).

Os títulos pessoais anteriormente usados para dar uma aparência florida (leia-se, um mínimo de importância, ou uma oportunidade de sobrevivência) aos seus utilizadores, perderam a cintilação e a relevância, em especial quando os vemos, assim, submersos na neblina desse sinistro que são as vidinhas de cada um, aqui expostas como é costume. Quantas delas relatadas na mais deprimente escrita (ou leitura,  para quem as interpreta) ou na maior vulgaridade de imagens.

A tecnologia já não permite que o pechisbeque ofusque com o mesmo fingimento as caganças e a ilusão das ostentações com que antes extraía sustento do solo infértil dos imitadores. Já não deixa passar por cordeiros os cães à cata de sobejos. 

É que agora, por estes lados, nestes ambientes, as danças de salão apenas recreiam os que as saibam dançar. Já não basta querer, é também preciso poder.

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