sexta-feira, 26 de setembro de 2014

é negociando tempo que a vida se torna no que é

Falámos de tanta, tanta coisa. Eu sei lá! Creio que começámos pelo tempo. Isso mesmo, o tempo. Ouvi-a falar dele como se ao descrever o seu tivesse já vivido o meu. Depois, falei eu. Parece-me que foi assim. Isto é, tenho quase a certeza que foi assim. Os assuntos sucediam-se inesgotáveis. E falei-lhe de mim, do leite sem lactose, das sementes de chia e das bagas Godji  que como ao pequeno-almoço. (Para quê?)  Das viagens que tenho feito. Dos natais em família. Dos novos amigos.  Aí achei-a saudosa. Em busca de uma recordação perdida. Também as tenho, sei como são.  Deu-me a ideia que esperava memórias dos que já partiram. Os meus e os dela. Ainda assim continuámos. Perguntei-lhe para desanuviar: mais ninharias interessam-te?  Ela sorriu e eu sorri também. Falou-me então de sorte, servindo-se da que diz ter sido a minha. Dos netos que adoro e que ela não pode vir a ter.(Oxalá tenha conseguido esconder a minha tristeza.) Falou-me dos amigos de infância. Comuns alguns. Até os que foram ficando pelas sombras do passado. De facto, porque não dizê-lo, estranhei, não sabia que tínhamos tantos em comum. Depois falámos de seguros. De negócios. De sucesso e de ambições. De casas e móveis. Eu sei lá! Eu sei lá! Lembro-me de lhe ter dito do gosto que tenho pela bricolage. Pelas pequenas obras domésticas. A torneira que pinga. Substituir o candeeiro. Pintar os muros. O telheiro novo. Ela disse-me que não era muito hábil de mãos. Desajeitada até. Porém, com um certo cinismo (ou provocação, quem sabe?) sublinhou que a sua eficiência na área em que se especializara ultrapassava todas  as demais. (Nada que eu não desconfiasse já, diga-se.) Por momentos falámos então de comidas. Eu de leitão, ela de bifes mal passados. Eu de bacalhau, ela de presunto. Ambos de queijos. De alheiras também. Depois de fruta. Mais eu que ela, cuja preferência ficou pelos bivalves. Então, ainda nos rimos quando lhe fiz saber do meu deficit de açúcar. Dos doces que não dispenso. Das iguarias  a que não resisto. Até que, sem o esperar, pediu que lhe falasse dos meus segredos nunca revelados. E assim fiz, enquanto ela me ouvia atenta. Como se os quisesse identificar um a um. Não eram muitos. Foi-lhe fácil fixá-los, tenho a certeza. Enquanto isso, começava a parecer-me impossível determinar se ela gostava (ou não) da pele que vestia. Fiquei com a ideia que sim. Estou a maçar-te- quis saber? Que não, respondi eu, incapaz de dizer o que sentia se ela perguntasse. Falámos então de saúde. Eu da minha. Ela não, que a não tem, nem dela precisa, já que goza de outros privilégios, como justificou logo a seguir. Nesse momento, à medida que lhe fui percebendo a hesitação, achei que ainda nada tinha decidido sobre o que fazer de mim. E eu, aproveitei o momento para lhe mostrar como estava disposto a aceitar sem arguir o destino que me reservava. Assim visse ela nisso uma forma de negociarmos. Deve ter resultado, eu acho. Ou, pelo menos, terei acrescentado algum peso às dúvidas que a senti ter. Isto, claro está, no meu ingénuo pressuposto  de que as teve realmente. Foi assim, sem mais, que concluímos o diálogo. Eu mostrando-me disposto a aceitar a sua decisão, ela finalmente compreensiva, a sugerir-me um adiamento na sua deliberação. Voltamos a falar daqui a mais uns meses, disse em jeito de despedida. Ela melhor que ninguém sabia quantos, é evidente. Deixa-me ficar sozinha, pediu num tom de voz que ainda não lhe tinha ouvido. A mim pouco mais me restou do que aceitar sem colocar questões. O resultado do negócio só o saberei depois, quando ela apurar contas e me cobrar o preço a pagar por tal sorte.

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