Falámos de tanta, tanta coisa. Eu sei lá! Creio que começámos
pelo tempo. Isso mesmo, o tempo. Ouvi-a falar dele como se ao descrever o seu
tivesse já vivido o meu. Depois, falei eu. Parece-me que foi assim. Isto é,
tenho quase a certeza que foi assim. Os assuntos sucediam-se inesgotáveis. E
falei-lhe de mim, do leite sem lactose, das sementes de chia e das bagas
Godji que como ao pequeno-almoço. (Para quê?) Das viagens que tenho
feito. Dos natais em família. Dos novos amigos. Aí achei-a saudosa. Em
busca de uma recordação perdida. Também as tenho, sei como são. Deu-me a ideia que esperava memórias dos que
já partiram. Os meus e os dela. Ainda assim continuámos. Perguntei-lhe para
desanuviar: mais ninharias interessam-te? Ela sorriu e eu sorri também.
Falou-me então de sorte, servindo-se da que diz ter sido a minha. Dos netos que
adoro e que ela não pode vir a ter.(Oxalá tenha conseguido esconder a minha
tristeza.) Falou-me dos amigos de infância. Comuns alguns. Até os que foram
ficando pelas sombras do passado. De facto, porque
não dizê-lo, estranhei, não sabia que tínhamos tantos em comum. Depois falámos
de seguros. De negócios. De sucesso e de ambições. De casas e móveis. Eu sei
lá! Eu sei lá! Lembro-me de lhe ter dito do gosto que tenho pela bricolage. Pelas pequenas obras
domésticas. A torneira que pinga. Substituir o candeeiro. Pintar os muros. O
telheiro novo. Ela disse-me que não era muito hábil de mãos. Desajeitada até.
Porém, com um certo cinismo (ou provocação, quem sabe?) sublinhou que a sua
eficiência na área em que se especializara ultrapassava todas as demais.
(Nada que eu não desconfiasse já, diga-se.) Por momentos falámos então de
comidas. Eu de leitão, ela de bifes mal passados. Eu de bacalhau, ela de
presunto. Ambos de queijos. De alheiras também. Depois de fruta. Mais eu que
ela, cuja preferência ficou pelos bivalves. Então, ainda nos rimos quando lhe
fiz saber do meu deficit de açúcar. Dos doces que não dispenso. Das iguarias
a que não resisto. Até que, sem o esperar, pediu que lhe falasse dos meus
segredos nunca revelados. E assim fiz, enquanto ela me ouvia atenta. Como se os
quisesse identificar um a um. Não eram muitos. Foi-lhe fácil fixá-los, tenho a
certeza. Enquanto isso, começava a parecer-me impossível determinar se ela
gostava (ou não) da pele que vestia. Fiquei com a ideia que sim. Estou a
maçar-te- quis saber? Que não, respondi eu, incapaz de dizer o que sentia se
ela perguntasse. Falámos então de saúde. Eu da minha. Ela não, que a não tem,
nem dela precisa, já que goza de outros privilégios, como justificou logo a
seguir. Nesse momento, à medida que lhe fui percebendo a hesitação, achei que
ainda nada tinha decidido sobre o que fazer de mim. E eu, aproveitei o momento
para lhe mostrar como estava disposto a aceitar sem arguir o destino que me
reservava. Assim visse ela nisso uma forma de negociarmos. Deve ter resultado,
eu acho. Ou, pelo menos, terei acrescentado algum peso às dúvidas que a senti
ter. Isto, claro está, no meu
ingénuo pressuposto de que as teve realmente. Foi assim, sem mais, que
concluímos o diálogo. Eu mostrando-me disposto a aceitar a sua decisão, ela
finalmente compreensiva, a sugerir-me um adiamento na sua deliberação. Voltamos
a falar daqui a mais uns meses, disse em jeito de despedida. Ela melhor que
ninguém sabia quantos, é evidente. Deixa-me ficar sozinha, pediu num tom de voz
que ainda não lhe tinha ouvido. A mim pouco mais me restou do que aceitar sem
colocar questões. O resultado do negócio só o saberei depois, quando ela apurar
contas e me cobrar o preço a
pagar por tal sorte.
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