segunda-feira, 29 de setembro de 2014

que gente esta!

Já não me lembro a que propósito, talvez por ser domingo, ontem depois do jantar tivemos visitas. Daquelas que fazendo-se convidadas quando nos entram em casa avisam logo - não demoramos, é rápido. Não foi. E, se não tardou a explicação sobre ao que vinham,  demorou (e não foi pouco) a apetecer-lhes ir embora. Devemos ter conceitos diferentes de rapidez, é o que é. Adiante. Pelo meio, das quase duas horas que levaram a ser rápidos, proporcionaram-nos momentos de apatetada exaustão. E, só mesmo por temermos que nos pudessem estar a espiar pelo canto olho, evitámos bocejar enquanto suspendiam a conversa (atente-se no desplante), distraídos com um daqueles parolos programas da nossa dominical TV nocturna. Bem mais tarde, cruzava eu as pernas pela vigésima terceira vez, pouco depois de se auto-elogiarem pela educação que deram à filha, fizeram (finalmente) o anúncio da vontade de nos deixar. Senti então na boca o sabor da salada de rúcula e beterraba do almoço e uma lágrima de sangue a querer escorrer-me pela face. Salivando acima do habitual para uma noite de domingo consegui, a tempo, engolir um (o paladar) e evitar a outra (o pingo de hemoglobina). Porém, o que já não consegui foi evitar o relato que ainda nos fizeram (em tom de queixume),  daquilo que os irrita sobremaneira quando aproveitam uma horita ao almoço para ir, numa corrida, às compras ao hipermercado. São os velhotes, aclarou ela num sorriso que apelava à nossa concordância. São os velhotes. Sabem o que é uma pessoa chegar à caixa para pagar e ter na frente só velhotes, com três ou quatro coisas para pagar? Umas peúgas bordeaux. Um pacote de chá de camomila. Um frasco de limpa-vidros e uma lata de pimentão. Estão a ver que gente esta!? Parece que até fazem com intenção. Escolher aquelas horas para ir para ali estorvar. Sinceramente! E, dito isto, não sei se por terem lido nos nossos olhos mortos (perdidos no tapete da sala)  o esgar da repulsa, ou por terem percebido a intensidade do arrepio que nos subiu a espinha. Lá os vimos então levantar e, pedindo desculpa, culpando o fugaz passar do momento, prometerem voltar outro dia, com mais tempo. (Novo arrepio agora seguido de vertigem.) Até que, já na rua, o carro  a arrancar, num aceno que saiu preso pelo meu mais apurado lado anti-social, prometi-me  não voltar a abrir-lhes a porta. A partir de hoje, às noites de domingo, estores fechados, cortinas corridas, luzes apagadas, silêncio de sepulcro. Não estamos. Se por pouca sorte vierem num outro dia, juro, enxoto-os. Como faço com os cães sarnosos, as cobras e os vendedores de fé religiosa. 

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