De há uns tempos para cá tenho andado a ler com alguma
continuidade uns quantos autores anónimos. Quer dizer, anónimos não,
desconhecidos, ignorados até. Faço-o, como sempre fiz, pelo prazer que me dá a
sua escrita, independentemente do reconhecimento que tenham. Esse, em regra,
nada mais faz do que promovê-los, pouco se importando com a qualidade que não
seja a do papel onde os edita quando a isso se dispõe. Contudo, dê eu as voltas
que der às suas produções, em todas encontro vestígios de dilatada ambição por
virem a notabilizar-se como escritores de renome. É uma fatalidade. Uns
agarrados à bóia da matriz intelectual, de que se acham modelos únicos, outros
convictos que só a falta de poder económico os separa do pedestal do destaque. Todos eles padecem da mesma sofreguidão mediática.
Ora,
é daqui que extraio a minha firme convicção de que já são poucos os que usam a escrita
por puro deleite. Usam-na antes para expor os seus fantasmas. Como ponto de
partida para uma corrida cujo fôlego acham ter de sobra. Ignorando, todos eles,
que a escrita que vinga, aquela que se eterniza, é a que sai natural das mãos
que lhe dão voz. Ou, como diz o António (Lobo Antunes, claro), o mais difícil na
escrita é fazer simples e bom. É que, aqui, mais do que em qualquer outra arte, para os
ambiciosos (e para os que sofrem de cegas auto-estimas) querer não é poder.
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