segunda-feira, 8 de setembro de 2014

como se o querer bastasse

De há uns tempos para cá tenho andado a ler com alguma continuidade uns quantos autores anónimos. Quer dizer, anónimos não, desconhecidos, ignorados até. Faço-o, como sempre fiz, pelo prazer que me dá a sua escrita, independentemente do reconhecimento que tenham. Esse, em regra, nada mais faz do que promovê-los, pouco se importando com a qualidade que não seja a do papel onde os edita quando a isso se dispõe. Contudo, dê eu as voltas que der às suas produções, em todas encontro vestígios de dilatada ambição por virem a notabilizar-se como escritores de renome. É uma fatalidade. Uns agarrados à bóia da matriz intelectual, de que se acham modelos únicos, outros convictos que só a falta de poder económico os separa do pedestal do destaque. Todos eles padecem da mesma sofreguidão mediática. 
Ora, é daqui que extraio a minha firme convicção de que já são poucos os que usam a escrita por puro deleite. Usam-na antes para expor os seus fantasmas. Como ponto de partida para uma corrida cujo fôlego acham ter de sobra. Ignorando, todos eles, que a escrita que vinga, aquela que se eterniza, é a que sai natural das mãos que lhe dão voz. Ou, como diz o António (Lobo Antunes, claro), o mais difícil na escrita é fazer simples e bom. É que, aqui, mais do que em qualquer outra arte, para os ambiciosos (e para os que sofrem de cegas auto-estimas) querer não é poder.    

Sem comentários: