Num
recato de espavento a vistosa viatura estaciona mesmo na frente da casa da
senhora. Do seu interior saem os dois agentes. Musculados. Afoitos.
Indiscretos. Trajam ambos fatos completos, nada casuais, a que falta a sobriedade
e o comedimento que não possuem e que deles se esperaria. Olhos postos na porta
da residência aguardam que o mais pequeno movimento lhes dê sinal de
actuação. Enquanto isso, um deles,
hesitante quanto á forma de se mostrar elegante puxa as descaídas calças e
tenta (sem sucesso) encolher a barriga.
Ouve-se então o clique metálico da porta a abrir. Eis que a senhora se
dispõe a sair. Já à sua espera, a postos, com asas de mãe galinha, os dois
valentes amparos abriram as portas do veículo permitindo-lhe acesso. Ela, por
sua vez, lançando-lhes um esgar misto de altivez e desdém, entrega a mala a um
deles e ocupa o banco traseiro num acomodar desleixado. E, ei-los que já partem todos num fulgor de
velocidade e despropósito que soa mais a exibição (muito mais) do que a zelosa
protecção.
Mais tarde, bem mais tarde, o fim do dia a aproximar-se da noite,
ei-los de volta. A falta de discrição da manhã ainda a acompanhá-los, agora
talvez mais inchada e generosa. Carro estacionado. Os quatro piscas ligado. Os
seguranças primeiro, a magistrada de seguida. Portas que abrem e fecham. A mala
outra vez. Um até amanhã indiferente e seco, trocado sem vestígios de simpatia. E eis
que já se fazem à estrada. Cem metros apenas, como de costume, para depois,
indiferentes à surpresa dos passantes, pararem e fazerem a mesma inversão de
marcha de todos os dias. Agora, lentamente, nova passagem pela frente da casa, olhos postos na
porta fechada. Rotinas de fotocópia. Precauções fingidas (ou escusadas, sei
lá eu!). Tivessem os dois guarda-costas
atrasado a sua passagem uns segundos mais e teriam tido ensejo de assistir à
saída da senhora juíza. Desta vez envergando um fato de treino, alheia ao perigo,
que não à oportunidade de se exibir. Estrada fora, em passada de jogging,
certificando-se, pelo canto do olho, que os vizinhos reparam nela. Ainda bem
que são dispensáveis os seguranças, depois das 17 horas. Afinal o perigo é uma ameaça
que espreita com horário de funcionário público.
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