domingo, 1 de dezembro de 2013

o perigo (essa ameaça em vias de extinção)

Num recato de espavento a vistosa viatura estaciona mesmo na frente da casa da senhora. Do seu interior saem os dois agentes. Musculados. Afoitos. Indiscretos. Trajam ambos fatos completos, nada casuais, a que falta a sobriedade e o comedimento que não possuem e que deles se esperaria. Olhos postos na porta da residência aguardam que o mais pequeno movimento lhes dê sinal de actuação.  Enquanto isso, um deles, hesitante quanto á forma de se mostrar elegante puxa as descaídas calças e tenta (sem sucesso) encolher a barriga.  Ouve-se então o clique metálico da porta a abrir. Eis que a senhora se dispõe a sair. Já à sua espera, a postos, com asas de mãe galinha, os dois valentes amparos abriram as portas do veículo permitindo-lhe acesso. Ela, por sua vez, lançando-lhes um esgar misto de altivez e desdém, entrega a mala a um deles e ocupa o banco traseiro num acomodar desleixado.  E, ei-los que já partem todos num fulgor de velocidade e despropósito que soa mais a exibição (muito mais) do que a zelosa protecção. 

Mais tarde, bem mais tarde, o fim do dia a aproximar-se da noite, ei-los de volta. A falta de discrição da manhã ainda a acompanhá-los, agora talvez mais inchada e generosa. Carro estacionado. Os quatro piscas ligado. Os seguranças primeiro, a magistrada de seguida. Portas que abrem e fecham. A mala outra vez. Um até amanhã indiferente e seco, trocado sem vestígios de simpatia. E eis que já se fazem à estrada. Cem metros apenas, como de costume, para depois, indiferentes à surpresa dos passantes, pararem e fazerem a mesma inversão de marcha de todos os dias. Agora, lentamente, nova  passagem pela frente da casa, olhos postos na porta fechada. Rotinas de fotocópia. Precauções fingidas (ou escusadas, sei lá  eu!). Tivessem os dois guarda-costas atrasado a sua passagem uns segundos mais e teriam tido ensejo de assistir à saída da senhora juíza. Desta vez envergando um fato de treino, alheia ao perigo, que não à oportunidade de se exibir. Estrada fora, em passada de jogging, certificando-se, pelo canto do olho, que os vizinhos reparam nela. Ainda bem que são dispensáveis os seguranças, depois das 17 horas. Afinal o perigo é uma ameaça que espreita com horário de funcionário público.   

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