domingo, 15 de dezembro de 2013

o inevitável PLANO B

Há uns tempos que ando a amadurecer a ideia de regenerar o valor de certas coisas. Coisas que já o tiveram antes, mas que, contudo, deixaram de o ter, abandonadas num qualquer desvão da vida, como acontece com os sonhos sem detalhes.  Coisas de nada. Mínimas.  A que, aos poucos, nos voltamos a encostar empurrados pela necessidade de ‘fazer pela vida’, ou determinados a enfrentar o futuro sem ser através de amanhãs risonhos que nunca mais cá chegam. Trata-se afinal de voltarmos a aceitar que o  efeito de nos satisfazermos  com pouco só tem vantagens. Quem nos educou dizendo o contrário, que a ambição, mesmo desmesurada,  tinha uma auto-estrada de acesso directo ao ego, à estima e à satisfação das  aspirações estava redondamente enganado. Tem apenas um carreiro, que serpenteia cheio de afluentes e de desvios por entre o egoísmo, a cegueira, a cobiça e a ganância. E é nesta última que desagua, como numa praça, o excesso de tudo (e de tanto) querer.  Sem darmos por ela somos atacados (qual fungo) por aquele instinto primário da cobiça que só funciona até que se consiga o que ansiamos. Depois, a coisa perde a graça e partimos para outra. E assim perdemos a capacidade de nos satisfazermos com o relógio de corda, com um caderno e um lápis, com os vidros de abrir manuais, com a falta de elevadores. De todos os elevadores. E são imensos eles.  Esquecemos o gozo do pôr do sol ao vivo, o consolo do livro lido com tempo, sem pressas, na esplanada junto ao mar, o agrado de uma conversa sem rumo,  o prazer de podar a árvore e de lhe aconchegar o estrume em volta do caule, na esperança de que para o ano as nozes sejam ainda melhores.  Na net, no hipermercado, encontramos o mesmo e mais depressa. Não queremos mas, cá dentro, intimamente, sem darmos por ela, já todos achamos que é esse o único caminho. O dos açúcares rápidos, refinados pela pressa de viver. Uns chama-lhe progresso, outros evolução. Há os que o tratam como um percurso  natural. Sem custos. O pior é se um dia (tudo faz crer que vem já a caminho)  voltamos a  necessitar das tais preciosas e delicadas coisas mínimas. Oxalá não seja tarde para as reaprendermos. É na violência e no inesperado com que esse dia nos atingirá que está o inevitável e a urgência de irmos todos (todos nós) burilando e introduzindo um PLANO B.  Uma escolha consciente opcional. Não vá isto, como se começa a prever (palavras ditas em surdina), um dia acabar mal. 

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