Há uns tempos que ando a amadurecer a ideia
de regenerar o valor de certas coisas. Coisas que já o tiveram antes, mas que,
contudo, deixaram de o ter, abandonadas num qualquer desvão da vida, como acontece
com os sonhos sem detalhes. Coisas de
nada. Mínimas. A que, aos poucos, nos
voltamos a encostar empurrados pela necessidade de ‘fazer pela vida’, ou determinados
a enfrentar o futuro sem ser através de amanhãs risonhos que nunca mais cá
chegam. Trata-se afinal de voltarmos a aceitar que o efeito de nos satisfazermos com pouco só tem vantagens. Quem nos educou
dizendo o contrário, que a ambição, mesmo desmesurada, tinha uma auto-estrada de acesso directo ao
ego, à estima e à satisfação das aspirações estava redondamente enganado. Tem
apenas um carreiro, que serpenteia cheio de afluentes e de desvios por entre o
egoísmo, a cegueira, a cobiça e a ganância. E é nesta última que desagua, como
numa praça, o excesso de tudo (e de tanto) querer. Sem darmos por ela somos atacados (qual
fungo) por aquele instinto primário da cobiça que só funciona até que se
consiga o que ansiamos. Depois, a coisa perde a graça e partimos para outra. E
assim perdemos a capacidade de nos satisfazermos com o relógio de corda, com um
caderno e um lápis, com os vidros de abrir manuais, com a falta de elevadores.
De todos os elevadores. E são imensos eles.
Esquecemos o gozo do pôr do sol ao vivo, o consolo do livro lido com
tempo, sem pressas, na esplanada junto ao mar, o agrado de uma conversa sem
rumo, o prazer de podar a árvore e de
lhe aconchegar o estrume em volta do caule, na esperança de que para o ano as
nozes sejam ainda melhores. Na net, no
hipermercado, encontramos o mesmo e mais depressa. Não queremos mas, cá dentro,
intimamente, sem darmos por ela, já todos achamos que é esse o único caminho. O
dos açúcares rápidos, refinados pela pressa de viver. Uns chama-lhe progresso,
outros evolução. Há os que o tratam como um percurso natural. Sem custos. O pior é se um dia (tudo
faz crer que vem já a caminho) voltamos
a necessitar das tais preciosas e
delicadas coisas mínimas. Oxalá não seja tarde para as reaprendermos. É na
violência e no inesperado com que esse dia nos atingirá que está o inevitável e
a urgência de irmos todos (todos nós) burilando e introduzindo um PLANO B. Uma escolha consciente opcional. Não vá isto,
como se começa a prever (palavras ditas em surdina), um dia acabar mal.
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