sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

a prenda

Todos os anos, por esta altura (e por outras também, mas isso agora pouco interessa), ele me leva o seu abraço de Natal. Já assim o faz há mais de 30 anos. Não me lembro de alguma vez ter falhado. Manhã cedo já ele espera por mim,  emboscado no frio dum qualquer  dia de Dezembro. Quando o vejo assim, à minha espera, mostro-lhe sempre o meu desconforto. Primeiro por sabê-lo já suficientemente idoso para que não lhe custe o esforço da deslocação. Depois, para sossegar a consciência (passe a deselegância e a ingratidão) já que me agradaria mais sabê-lo aquela hora no quente da cama do que a respirar o frio inumano que se faz sentir. Porém, ele não desiste, e a frase com que me aquieta o ralhete que lhe dou nunca muda: este ano ainda cá consegui vir, para o ano logo se vê… Repete-a assim há décadas, invariavelmente. Depois, ficamos  por ali na conversa, sem tempo,  deixando espraiar o que temos para dizer. Por fim, a custo, lá se despede e parte. Fico à porta, a vê-lo ir, a deixar para trás um eco de amizade que nada apaga. São feitas de gestos destes, pausados, meigos, sentidos, as melhores prendas do meu natal.  Para o ano logo se vê…

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