Todos os
anos, por esta altura (e por outras também, mas isso agora pouco interessa),
ele me leva o seu abraço de Natal. Já assim o faz há mais de 30 anos. Não me
lembro de alguma vez ter falhado. Manhã cedo já ele espera por mim, emboscado no frio dum qualquer dia de Dezembro. Quando o vejo assim, à minha
espera, mostro-lhe sempre o meu desconforto. Primeiro por sabê-lo já
suficientemente idoso para que não lhe custe o esforço da deslocação. Depois, para
sossegar a consciência (passe a deselegância e a ingratidão) já que me
agradaria mais sabê-lo aquela hora no quente da cama do que a respirar o frio
inumano que se faz sentir. Porém, ele não desiste, e a frase com que me aquieta
o ralhete que lhe dou nunca muda: este ano ainda cá consegui vir, para o ano
logo se vê… Repete-a assim há décadas, invariavelmente. Depois, ficamos por ali na conversa, sem tempo, deixando espraiar o que temos para dizer. Por
fim, a custo, lá se despede e parte. Fico à porta, a vê-lo ir, a deixar para
trás um eco de amizade que nada apaga. São feitas de gestos destes, pausados,
meigos, sentidos, as melhores prendas do meu natal. Para o ano logo se vê…
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