Deixei
por aí perdida, talvez presa num qualquer ponto da minha memória, a recordação
do tempo em que trabalhava com prazer. Em que extraía desse prazer uma vasta
gama de outros agrados. Quase arriscaria dizer que não me recordo de alguma vez
ter ido trabalhar com outra disposição
que não fosse de satisfação (estúpida satisfação, eu sei!). Daquelas próprias
de quem faz o que gosta gostando do que faz. Porém, volvidos quase 40 anos
desta prática, deparo-me agora com uma nova sensação. A que resulta dos meus
dois últimos anos de actividade profissional, prestes a vencerem-se. Foram eles
que me trouxeram até este estado de espírito (ou de inutilidade) em que ora me
encontro, padecendo a cada minuto que ali passo (no local de trabalho) sem que o
alívio do fim alguma vez chegue. Dois
anos vividos sob a égide do pior por acontecer. Em que os segundos
ganharam a lentidão de horas e os dias o
efeito do tormento por transpor. E, sobretudo,
em que o amanhã se torna, já de véspera, bem pior do que imaginar se
possa. É por isso que hoje, já dou
comigo a sonhar muito mais com o regresso a casa do que com a partida, de manhã.
É também por isso que se tornou enorme o anseio pela libertação deste pesadelo
e de todo aquele passado que a indignidade esgotou e que cada vez mais se
reflecte na má qualidade do serviço prestado.
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