Ontem fez anos que morreu o meu
avô. Era um homem do caraças. Sinto saudades dele, levemente atenuadas pelo
relógio ali em cima do móvel. Herança que me coube em sorte, entre outras. Este
feitio, por exemplo. O vazio que me enche à noite. O jeito para engraxar
sapatos. O uso desse adoçante que é o optimismo. O talento estético. O gosto
pela fantasia. Tenho um ADN extraído de ti, avô. Ainda assim gostava de ter
herdado outros engenhos teus. A paciência. O teu carinho e simpatia feitos de
pequenos gestos. A coragem e a força. Aquele teu lado generoso. Esmero-me mas
não te alcanço. Fico para aqui a cochichar lamentos e pouco mais. A recordar
como parecias ter orgulho em mim. Logo eu que tão poucos motivos te dei. O
bolor a entranhar-se na memória e tu cada vez mais distante. O que me resta é
pouco. O teu relógio ali parado. Um livrito que escreveste. Enfim, quase me
sinto reconhecido a estes objectos por estarem aqui comigo, ajudando-me a
recordar-te. Pequenas coisas que nos aproximam encurtando a distância que nos
separa.
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