quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Porquê? Por maldade, claro.

O quadro pinta-se assim: à mesa do restaurante, no espaço onde decorre o evento, o fotógrafo (maldoso, só pode) registou o momento. As duas, lado a lado, sorrindo para a objectiva (quanta objectividade senhores!) a aguardar o milagroso click. 

Mais tarde, talvez já sob o efeito do engano que o escuro da noite facilita, havia o retratista de difundir a imagem, num desses instrumentos perfeitos para criar ilusões, onde se postam toda a espécie de inconveniências e de ‘esquizofrenias mediáticas’.

Até aqui nada de mais. Afinal é a idade, essa demolidora de fisionomias, que faz de todos nós os feios e as feias em que nos tornamos. A diferença está (estará?) na cegueira que nos tolhe. Na treva que nos veda o acesso a essa e outras dolorosas verdades. Houve até quem já o tivesse dito de outra forma, não menos pungente: «Com a idade todos ficamos respeitáveis, as prostitutas e os prédios feios também

Mas, de volta à pintura, lá estavam as duas, coitadas, naquele ar de desamparo, achando-se belas, em todo o seu esplendor. Porém, feias como uma noite de trovões. À espera do pior, que, tenho a certeza, estava atrasado e ainda por vir. Mas veio. Chegou sob a forma de amiga. Vestida na sua pele exausta de sol, as narinas dilatadas, os poros na testa e nariz pontilhados de creme, a falta do molar superior a fazer-se notar. Chegou e disse, mesmo por baixo da foto, em jeito de comentário daqueles que se fazem sem deixar lugar a dúvidas: LINDAS!


E eu, mais feio ainda, li aquilo e não retive o sorriso cândido com que sempre acolho a maldade. 

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