O quadro pinta-se assim: à mesa do restaurante, no espaço
onde decorre o evento, o fotógrafo (maldoso, só pode) registou o momento. As
duas, lado a lado, sorrindo para a objectiva (quanta objectividade senhores!) a
aguardar o milagroso click.
Mais tarde,
talvez já sob o efeito do engano que o escuro da noite facilita, havia o
retratista de difundir a imagem, num desses instrumentos perfeitos para criar
ilusões, onde se postam toda a espécie de inconveniências e de ‘esquizofrenias
mediáticas’.
Até aqui nada de mais. Afinal é a idade, essa demolidora de
fisionomias, que faz de todos nós os feios e as feias em que nos tornamos. A
diferença está (estará?) na cegueira que nos tolhe. Na treva que nos veda o
acesso a essa e outras dolorosas verdades. Houve até quem já o tivesse dito de
outra forma, não menos pungente: «Com a idade todos ficamos respeitáveis, as
prostitutas e os prédios feios também.»
Mas, de volta à pintura, lá estavam as duas, coitadas,
naquele ar de desamparo, achando-se belas, em todo o seu esplendor. Porém,
feias como uma noite de trovões. À espera do pior, que, tenho a certeza, estava
atrasado e ainda por vir. Mas veio. Chegou sob a forma de amiga. Vestida na sua
pele exausta de sol, as narinas dilatadas, os poros na testa e nariz
pontilhados de creme, a falta do molar superior a fazer-se notar. Chegou e
disse, mesmo por baixo da foto, em jeito de comentário daqueles que se fazem
sem deixar lugar a dúvidas: LINDAS!
E eu, mais feio ainda, li aquilo e não retive o sorriso
cândido com que sempre acolho a maldade.
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