Os clientes são sempre os mesmos. Entre eles eu. As cinco
pequenas mesas quase se tocam de tão próximas que estão. Alinhadas por um
critério espacial cujo único objectivo é assegurar que todos ficaremos
apertados por igual. E ficamos, de facto. A televisão, junto ao tecto, com o volume duas oitavas acima do máximo,
está tão mal sintonizada que fico sempre sem perceber onde chove mais
abundantemente, se lá fora na rua ou aqui no seu ecrã. Os jornais exaustivamente manipulados estão empilhados
sobre a arca dos gelados. Ali ao canto, mesmo à porta da casa-de-banho, um
enorme amontoado de caixas vazias, um
barril de cerveja, dois volumes de toalhas
de mesa, ainda por usar, e três chapéus de sol, ao alto, ferrugentos e fechados. Fechado está também o forno dos croissants, há
muito convertido em móvel dos sobejos. É lá que são arrumados os inúteis. E
os detergentes também. No interior do
balcão-vitrine há uma pilha de diversos, imunes ao tempo, repartindo espaço com
as latas da Pepsi, os néctares, as águas, os Bongos e um prato onde o bolo de
bolacha está perto do fim. Na prateleira de cima, em três
tabuleiros adjacentes à caixa de cartão onde se acumulam as contas por
pagar e as facturas do mês, um queque e um bolo de arroz, duas bolas de Berlim
e três bolinhos de amêndoa. Daqueles do Algarve, que eu era capaz de jurar já ali
estarem desde o Natal. Por entre os escassos centímetros de montra disponíveis,
tal a quantidade de cartazes colados no vidro, reparo que deixou de chover lá
fora. Porém, na televisão continuam os aguaceiros. É assim a tasca onde almoço diariamente. Onde
o encanto por tudo o que é feio exerce sobre mim a mesma atracção que um
restaurante de cozinha de autor desempenha sobre qualquer gourmet que se preze.
Num dos editais afixados no seu interior reparei que a classificação que lhe é
dada é de ‘casa-de-pasto’. Enternece-me ainda mais o espaço, agora. Talvez por sabê-lo assim, honrosamente digno
de tão apropriada designação.
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