sábado, 25 de janeiro de 2014

tudo o que é feio me encanta

Os clientes são sempre os mesmos. Entre eles eu. As cinco pequenas mesas quase se tocam de tão próximas que estão. Alinhadas por um critério espacial cujo único objectivo é assegurar que todos ficaremos apertados por igual. E ficamos, de facto. A televisão, junto ao tecto,  com o volume duas oitavas acima do máximo, está tão mal sintonizada que fico sempre sem perceber onde chove mais abundantemente, se lá fora na rua ou aqui no seu ecrã.  Os jornais exaustivamente manipulados estão empilhados sobre a arca dos gelados. Ali ao canto, mesmo à porta da casa-de-banho, um enorme  amontoado de caixas vazias, um barril de cerveja,  dois volumes de toalhas de mesa, ainda por usar, e três chapéus de sol, ao alto, ferrugentos e fechados.  Fechado está também o forno dos croissants, há muito convertido em móvel dos sobejos. É lá que são arrumados os inúteis. E os detergentes também.  No interior do balcão-vitrine há uma pilha de diversos, imunes ao tempo, repartindo espaço com as latas da Pepsi, os néctares, as águas, os Bongos e um prato onde o bolo de bolacha está perto do fim. Na prateleira de cima,  em três  tabuleiros adjacentes à caixa de cartão onde se acumulam as contas por pagar e as facturas do mês, um queque e um bolo de arroz, duas bolas de Berlim e três bolinhos de amêndoa. Daqueles do Algarve, que eu era capaz de jurar já ali estarem desde o Natal. Por entre os escassos centímetros de montra disponíveis, tal a quantidade de cartazes colados no vidro, reparo que deixou de chover lá fora. Porém, na televisão continuam os aguaceiros.  É assim a tasca onde almoço diariamente. Onde o encanto por tudo o que é feio exerce sobre mim a mesma atracção que um restaurante de cozinha de autor desempenha sobre qualquer gourmet que se preze. Num dos editais afixados no seu interior reparei que a classificação que lhe é dada é de ‘casa-de-pasto’. Enternece-me ainda mais o espaço, agora.  Talvez por sabê-lo assim, honrosamente digno de tão apropriada designação. 

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