Dos
espaços comerciais onde habitualmente me desloco há um cuja proximidade do meu
domicílio me faz visitá-lo mais vezes. Terá mais de 100 lojas, estou em crer.
Dois pisos de estacionamento. Dois pisos de estabelecimentos. Um piso de
restauração e afins. Nele, frequentemente me acontece, como hoje, deixar
perdida a atenção na excessiva quantidade de espaços em remodelação. Não há
corredor que os não tenha, por vezes, até confinando uns com os outros. São
assim inúmeros os que por lá encontro encerrados.
Ora,
não há vez nenhuma em que nisso repare, que não comente, com
quem me acompanhe, que tais encerramentos, conjugados com a observação de que
há muito pouca gente às compras, são um doloroso reflexo da crise económica que
o país há muito atravessa.
Depois,
com metade de mim imbuída no espírito compulsivo de que alguém terá de fazer
alguma coisa (consumo de preferência) para que esta gente sobreviva, lá vou, de loja em loja, deixando o meu
rasto de fidelidade consumista.
Mais
tarde, nem vos digo quantos euros mais tarde, quando o meu lado de ‘voraz-comprador-de-tudo-o-que-não-me-faz-falta’
já se mostra saciado, disponho-me então a concluir, juntamente com o almoço num
dos restaurantes locais, esta incursão de mecenas.
É
então, enquanto como, estrategicamente sentado num dos muitos espaços comuns
ali disponíveis, que reparo não haver praticamente nenhumas mesas livres. Mais,
que muitos outros clientes, de tabuleiros cheios, fazem o circuito pelo meio
das já ocupadas mesas, como a nossa, na expectativa de encontrar local onde
possam sentar-se e almoçar.
Nisto,
depois de em redor da zona que ocupo sumariamente ter contado mais de duzentas
das ditas mesas, interrogo-me então para com os meus interlocutores: como é que
isto pode estar tão cheio?
E,
já depois do repasto, dos cafés e do lento percurso que me leva ao
estacionamento onde deixara o carro, sublinho ainda mais a anterior
interrogação: mas o que se passa aqui para isto ter ficado assim, subitamente
tão congestionado?
Afinal,
concluo, os indicadores da economia já não são o que eram. Mudem as lojas, as
marcas ou os locais que ocupam, o que não muda mesmo é a avidez com que
continuamos a deixar-nos seduzir pelo sofrimento cego a que nos leva a febre
consumista e a suposta hipocrisia reinante dos saldos fim de estação.
Vai daí, agora já ‘pacificado’
pelas ilusões de consumo a que me entreguei, eu pecador me confesso, convencido de que são os outros,
não eu (eu nunca), quem sustenta esta enfermidade.
Puta de vida.
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