domingo, 15 de fevereiro de 2015

esmolas

O bairro fino onde viveu já não lhe escondia a miséria. Mudou-se. Nunca fez nada na vida ainda que chame ‘anos de trabalho’ à meia dúzia dos que esbanjou num corrupio de festas, engates de ocasião e outras tertúlias afins. A família foi ficando pelo caminho. Pai, mãe, filha, tios, primos. O marido também. Todos. Uns mortos, outros vivos, dos quais apenas se aproximou enquanto lhe garantiram proveito. Já sem nada ainda tentou misturar com a condição de pedinte as amizades que sobravam. Negociou e tentou pagar, assim, até na horizontal, fazendo de si mercadoria, o acumulado de dívidas que foi fazendo. Porém, o corpo de matrona a que os excessos da vida a condenaram não deu grande ajuda. Nem isso resultou. Deixou então de fumar por não ter já com que pagar o vício. E, tal como antes deixara de beber, deixou também de comer. Deixou até de limpar a casa e lavar a roupa. As esmolas, se as consegue, já mal lhe chegam para o gasóleo e o telemóvel. Esses sim, luxos de que não pode privar-se, que a ligam ao mundo real onde ainda as consegue – as ajudas. Colou-se agora aos que na sociedade conseguem melhor visibilidade e apoios. Usa-os para garantir o restinho de exposição que sobra e ainda consegue. Dessa jamais abdica. Quem a vir vai julgá-la uma mulher madura, conformada, repartida entre o propósito de fazer o bem e as compras no Continente, antes da recolha da roupa na lavandaria, logo ao final da tarde, a caminho de casa. E depois, quem sabe (não poupemos na ficção), talvez dividida entre uma filha e um marido que a amasse às vezes, à noite. Até que, amanhã, despertos dessa ilusão, tudo volte a ser o que foi hoje, ontem e sempre. Quem a vir desconhece que vive só, longe da filha (há anos), sem companheiro(s) que a queira(m) para além da necessidade numa noite satisfeita, na mais confinada das pobrezas (a da falseada exibição). Quem a vê ignora que não seja quem se esforça por parecer, conseguindo mostrar quem não é. Não admira, portanto, que também amanhã ou depois a voltemos a encontrar na primeira fila de uma outra montra qualquer. Sobrevivendo das esmolas conseguidas não interessa como. Nem com quem. Vive das sobras. E também do efeito dos antipsicóticos que a impedem, eficazmente, de se atirar do segundo andar. 

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