Das muitas razões que me fazem gostar de
Viena. Assim numa espécie de predilecção maior que as outras. O facto de se
viver naquela grande urbe como quem vive numa aldeia é a maior de todas elas.
Das estradas aos transportes, passando pelas pessoas, há em Viena uma quietude de
vida que logo nos cativa. Inspiramos fundo e enchemos o peito dos vapores da
segurança. Da confiança. Do bem-estar. Delicio-me a olhar os vienenses nas suas
rotinas diárias. A vê-los viver. Fazem-no numa tranquilidade contagiante, que
nos derrete a crosta do incómodo com que costumamos enfrentar os espaços onde
as pessoas se juntam. Onde estamos habituados a ouvi-las. Como por cá (noutros
países também, embora menos), onde três ou quatro criaturas juntas resultam num
som aparentado com a Feira da Malveira à hora de ponta. Em Viena as surpresas e
a admiração espera-nos a cada esquina. Assim, literalmente. Recordo muitas
delas. Que encontrei (ou que me encontraram, já não sei) das formas mais
inesperadas que vos possa ocorrer. Sempre na mesma calma morna, que me esforço
aqui por transmitir. Uma das vezes em que essa realidade me atingiu (caiu-me
em cima com uma força brutal), foi na baixa de Viena. Numa das zonas
supostamente mais preenchidas de multidão. Às seis da tarde. Em Junho.
Passeávamos a pé, a engolir pasmo, quando, subitamente, ao dobrar a esquina de
um quarteirão, deparámos com uma pequena praça. Quadrada. Com arcadas fundas.
Cheias de esplanadas. Muitas mesmo. Todas repletas de gente. Bastante gente.
Fazia um sol absolutamente apetecível. Daquele que alimenta, sabem ? Contudo, o
impressionante é que não se ouviam as pessoas. Falavam. Soltavam gargalhadas.
Tudo isto sem som. Apenas um suave zumbido. Sem aquela algazarra de fundo a que estamos habituados, principalmente nós, latinos,
que tanto cultivamos esta imperfeição de falar uma oitava acima do normal. É
por isso que esta capacidade de silêncio dos vienenses me tange os nervos e
compõe boa parte do meu confessado deslumbre. Houvesse numa só daquelas
esplanadas um grupinho de meia dúzia de portugueses e havia de ser bonito. Só
ali se compreende verdadeiramente como vivemos num país de ruído. De todos os
ruídos. E interferências também. Muitas.
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