Nos seus olhos há um brilho triste e húmido. Nos lábios
aquilo que se cuida tenham sido sobras de palavras esmorecidas. Do rosto
escorre-lhe sofrimento sob a forma duma tristeza que não passa. Raramente a vi
sorrir. As únicas emoções que lhe retenho são, quase todas, quase sempre, de
assanho. Arrelias. Contrariedades. Apoquentações. Até hoje, pouco
mais lhe encheu o espaço oco em que a tenho visto viver. Até as palavras, as
poucas que me lembro de lhe ter ouvido, me pareceram poupadas. Secas. Contidas.
Resignadas a um sofrido pesar de que não
se libertam. Nem mesmo há dias, quando a vi passear de mão dada com o
marido, no shopping, e me pareceu ser magoada a expressão que levava.
Cruzámo-nos três ou quatro vezes. Ora eu entrando em lojas de onde eles saiam,
ora saindo daquelas onde entravam. Mas, nem uma só vez os vi trocar um som que
fosse. Uma gentileza leve. Um aceno de olhares. Uma intimidade cúmplice. Nada. Como
se nada fosse tudo o que tivessem a partilhar. Nada não, havia o silêncio, e esse era bem audível nos intervalos em que
respiravam. O resto, todo o resto, certamente já o tinham dito há muito. Ou
então, quem sabe, talvez o toque das mãos fosse o que de mais intenso tinham a compartir.
O que melhor os fazia esquecer a condição de infelizes. Um vazio já antigo,
daqueles que, aos poucos, ocupa tudo o que houve de profundo e que, perdido, já
não lhes dói.
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