quinta-feira, 8 de maio de 2014

que dor é essa que nunca passa?

Sangra-me a alma este correr dos dias, assim. Uma espécie de mutilação concertada, que me absorve a paciência ao limite do suportável. Por desatenção ou cegueira (vá lá saber-se) daqueles com quem me relaciono, o meu quotidiano gira à volta dum mundo queixoso. Gente que se arrasta até mim apenas para me conceder esse privilégio das suas mundanas chatices. Das suas repetidas lamúrias. Da lamechice do seu constante pedir. Ou da tentação do seu imutável reclamar. Passe a descortesia e o desdém eu creio que as pessoas já nem se dão conta. Há muito que esta conduta se tornou a matriz do seu relacionamento humano com os outros.  Poucas são as que o percebem. Uma, ou duas, talvez. Não são mais as que me procuram fora dessa linguagem uniforme  do queixume e do lamento.  Focadas nas suas cicatrizes, centradas nos seus umbigos elas comportam-se como lobos ávidos de quem os escute e querem lá saber que me sinta usado. O que sinto é-lhes indiferente.  Para elas a amizade é um serviço. Os seus problemas relatados com recurso a um alfabeto de dor constituem o horizonte do tempo. De todos os tempos. É assim que os meus dias se sucedem. As mais das vezes a estreitíssima latitude da minha missão terapêutica é  ouvir uivos de dor. De dores. E mesmo quando tal comportamento pede mais a minha piedade do que a minha ira ou indignação, o que sinto é desconforto e medo de não conseguir resistir. Afinal, ter pena de alguém é o mais reles dos sentimentos. É por isso que há momentos em que para mim escrever é apenas uma forma de minimizar a angústia dessa dor de detalhe e miséria.

(À data - 24.04.2012 - assim escrito, parece-me isto a sombra de um passado que a ressaca diluiu em amnésia. É espantoso o efeito de um mês longe das labaredas do inferno. Nada mais volta a ser o negrume que foi.) 

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