Houve um tempo em que achei que talvez não voltasse
a encontrar o caminho de volta à paz que tanto ansiava. Sentia-me sitiado por interesses.
Vivia rodeado de falsos amigos. Daqueles que só apareciam quando precisavam, ou
para almoços e jantares de favor. Não tenho memória de ter visto algum deles
nas horas más que até hoje tive de enfrentar. Então, há quase três anos, numa longa noite de Inverno, adormeci a congeminar a decisão
que haveria de mudar a minha vida. De tal sorte que, às oito da manhã do dia
seguinte, cem quilómetros depois, ela estava definitivamente tomada. Só os que
me eram íntimos souberam, informados um a um, com o pedido de que nada relevassem
durante os dois anos que levaria a pô-la em prática. Assim foi, de facto. E, tal como previsto, quando finalmente a alcancei, há cerca de um ano, uns quantos daqueles me vieram questionar: por que razão é que nunca lhes dissera? A muitos
nem resposta dei, confesso. A outros, pouquíssimos, ainda me dei ao trabalho de
lhes explicar que estavam enganados. Não tinha sido eu que não lhes dissera,
tinham sido eles que nunca quiseram saber. E foi daí, do semblante carregado de
embaraço, tal como do rubor da face e do nó que lhes persenti na garganta, que eu
colhi, então, o prémio maior – vê-los assim. Pequeninos, a digerir essa espécie
de mensagem (de dolorosa verdade) que acabava de lhes sair no ‘fortune cookie’
do almoço no restaurante chinês. Hoje, salvo algumas (raras) excepções, já são
residuais os que ainda ousam por
os olhinhos fora do lodo, certamente à espera da imprevidência de me verem
devolver-lhes os ridículos toques que me dão pelo facebook, ou de encontrarem
eco para os emails carregados de banalidade com que tentam arrancar-me uma
reacção. Hoje, um ano depois da lição que mediou este meu percurso até aqui,
posso finalmente dizê-lo – alcancei a paz. Muitos ou poucos, os amigos que sobreviveram
possuem (todos eles) o selo de garantia de terem passada no crivo (uma espécie
de pré-inspecção) em que ficaram retidos os outros, os tais das horas boas.
Por isso, ciente de que seria injusto terminar isto sem vos dizer obrigado,
deixo-vos, a todos vós, o meu reconhecido (e abraçado) agradecimento.
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