sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

substituta legal

Ligou como se quisesse fazer-me um relato relevante. Mas não era isso que queria, depressa deixou perceber. Ainda assim, como quem quer criar ambiente, contou-me, por duas vezes, a mesma coisa. Uma parvoíce qualquer que alguém pôs na minha boca. Finalmente, respirando fundo, lá teve coragem de dizer ao que vinha:

-Já leu o orçamento?

Que não, disse-lhe eu esperançado que ficasse por ali a sua tentativa. No entanto, sem desistir, voltou em força. Falou-me das muitas ‘alterações’ que o preceito trazia, ainda que sem ter conseguido acertar numa só que fosse. Talvez por isso, mesmo já não sendo nova para mim toda aquela vasta ignorância, senti-me  condoído com a revelada dificuldade de interpretação.

Às tantas, cansado por tanto desconhecimento, até eu senti vontade de lhe dizer que afinal tinha mesmo lido a dita disposição legislativa. Mais, que devíamos ambos tê-la lido, ainda que versões diferentes, a avaliar pelos disparates que acabava de lhe ouvir.

Resisti, contudo, e não lhe disse nada. Prometi apenas que uns dias depois, logo que o lesse, lhe telefonava para voltarmos a falar. Então, olhando pelo retrovisor, certifiquei-me que o meu neto não me tinha ouvido mentir e continuava distraído, ainda a ver a o livro recém comprado.

Por fim, fechando os olhos por breves segundos, voltei a por o carro a trabalhar ao mesmo tempo que pensava no infindo desacerto que cabe numa só palavra – substituição.

É sempre uma surpresa perceber que a há casos em que a burrice consegue ser quase inimputável.  E, pior que isso, é paga. 

Sem comentários: