Ligou como se quisesse
fazer-me um relato relevante. Mas não era isso que queria, depressa deixou
perceber. Ainda assim, como quem quer criar ambiente, contou-me, por duas
vezes, a mesma coisa. Uma parvoíce qualquer que alguém pôs na minha boca. Finalmente, respirando fundo, lá
teve coragem de dizer ao que vinha:
-Já leu o orçamento?
Que não, disse-lhe eu esperançado
que ficasse por ali a sua tentativa. No entanto, sem desistir, voltou em força.
Falou-me das muitas ‘alterações’ que o preceito trazia, ainda que sem ter conseguido
acertar numa só que fosse. Talvez por isso, mesmo já não sendo nova para mim
toda aquela vasta ignorância, senti-me condoído com a revelada dificuldade de interpretação.
Às tantas, cansado por tanto
desconhecimento, até eu senti vontade de lhe dizer que afinal tinha mesmo lido a
dita disposição legislativa. Mais, que devíamos ambos tê-la lido, ainda que
versões diferentes, a avaliar pelos disparates que acabava de lhe ouvir.
Resisti, contudo, e não lhe
disse nada. Prometi apenas que uns dias depois, logo que o lesse, lhe
telefonava para voltarmos a falar. Então, olhando pelo retrovisor,
certifiquei-me que o meu neto não me tinha ouvido mentir e continuava distraído, ainda a ver a o livro recém comprado.
Por fim, fechando os olhos
por breves segundos, voltei a por o carro a trabalhar ao mesmo tempo que pensava no
infindo desacerto que cabe numa só palavra – substituição.
É sempre uma surpresa perceber que a há casos em que a burrice consegue ser quase inimputável. E, pior que isso, é paga.
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