quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

exibicionistas da bondade *

Não me devem os meus progenitores ter talhado para ser a boa pessoa que vejo noutros. Educado na fé católica, onde fiz muito para lá do percurso próprio então exigido aos meus pares - baptismo, catequese, todas as comunhões e mais algumas, catequista e até sacristão – veio a ser pela mão hábil de um dos padres a cujo ministério ajudei que, mais tarde, vim a ser orientado para seguir uma vida menos exposta às ‘dúvidas’ que já naquela altura ele me percebia (percebia e estimulava fortemente, diga-se). Chamei-lhe ´duvidas’ mas talvez fossem muito mais que isso, já que se desenrolavam em torno dos sonhos, das perplexidades e até das ambições frustradas que atormentam todas as adolescências e que também a mim, naquela altura, me faziam vacilar entre o discreto ofício desempenhado na paróquia, e o ‘enfant terrible’ sempre disposto a provar os ‘pecados’ mais inconfessáveis. Não todos, só alguns. Os quais me via depois aflito para expiar nas infindáveis novenas a que a confissão invariavelmente me condenava.

Dito por outras palavras, eu devia ser realmente um bom cristão. Sobretudo quando comparado com alguns outros com que ao tempo tive ensejo de privar. Muitos deles mais activos que eu, cómoda e ‘nababamente’ (a palavra não existe, eu sei, mas queria que se entendesse, que nem nababos) naqueles grupos e movimentos que sempre gravitam em torno da igreja católica.  Mas, adiante que isso agora não interessa para nada.

Foi assim que a porta da minha adolescência veio então a abrir para uma vida mais centrada numa imensa gama de prazeres, muitos deles até ali ainda não totalmente descobertos, que viriam, a partir daí, a ser refinados pela ajuda de uns quantos amigos e, de novo, pela mão orientadora de dois professores de liceu. Um da disciplina de Português (claro), já falecido há muito; e outro (não vale rir) de Religião e Moral, que ainda hoje faz o favor de ser meu bom amigo, função esta que acumula com a de ex-pediatra da minha filha, actualmente dos meus netos.  

Bom, pelo meio disto, e até porque precisamente os meus netos um dia podem vir a ler estas desgraças, passo a omitir (conscientemente, é óbvio) as tropelias que a vida então me ofereceu. Umas, porque ditas acima do murmúrio, ao ouvido, seriam bem capazes de escandalizar as mentes mais castas. Outras, porque dizem de mim o que não me parece próprio deixar-vos saber assim, sem a ajuda de um desfibrilador por perto (sorriso cândido).

Ora, dizia eu, comprova-se não ter resultado deste percurso um espécime humano tão dotado de bondade como seria suposto. Diria até, que saiu dali um produto com defeito reconhecido (e irreparável, pelos vistos) no mecanismo do bem.

E tanto assim é que, dou hoje por mim a travar lutas sem quartel contra essa dita imperfeição que faz com que, por exemplo, nos funerais a que vou, não seja eu o primeiro a avançar quando é convidado um dos presentes  para ler as citações do evangelho (um qualquer, tanto faz, são todos tão fúnebres naquelas alturas) que melhor se apliquem aos falecidos. A mesma imperfeição  que me impede de dar a outra face (ou seja lá que parte do corpo for) depois de já ter apanhado um valente estaladão na primeira delas. Isto no ingénuo pressuposto de apenas termos duas faces, o que me parece ser uma coisa do domínio do engano puro e simples. Eu, pelo menos, devo ter para aí umas oitenta, ou mais. Mas, adiante. Voltemos às imperfeições.

É que aqui, sobretudo aqui, neste aspecto da enganação, sente-se mais que em qualquer outro caso o meu deficit de bondade, repetidamente sublinhado pelas mais diversas e mundanas ocorrências do meu quotidiano. Quer seja quando me deparo com aqueles casos, mais flagrantes, de entoadas loas, cantadas por alguns arautos da ‘boa política’ (esquerdalhos ou de direita, é igual, já que nada os difere quando se trata de se acharem melhores uns que outros) nas suas vidinhas tão cheias de ‘telhados de vidro’. Quer quando, também no meu dia-a-dia, vislumbro aquela outra rapaziada da minha geração, todos angelicamente vestidos de anjos,  outrora uns belos pulhas, muitos deles até com vergonhosos passados, que mesmo incapazes de nos olharem nos olhos, não deixam de se comportar como se as narrações dos seus registos criminais mais não relatassem do que faltas à catequese. E não é o que relatam, que eu sei. Não é e causa-me uma profunda urticária (e eczemas, e má disposição, e vómitos, causam-me tudo em suma) quando, nos vazios da vida, encontro muitos deles no desempenho de cargos (ou apenas, lugarzinhos) onde a sua travestida honestidade finge tratar das maleitas do mundo, ou amenizar o sofrimento daqueles a quem (noutros tempos) já roubaram o pão que lhes matava a fome.

E aqui dirão vocês: coitados, podem ter-se arrependido. Estou mesmo, mesmo a ouvi-los dizerem-no assim, num misto de piedade e compaixão. E eu, ao suspeitá-lo, por muito que discorde, hei-de concordar que é verdade sim. Podiam ter-se arrependido, de facto. O que não podem mesmo, e jamais lhes podia ser permitido, é vestir as asas de anjinhos e, procurando o palco, fazer questão de mostrar ao mundo a pureza  (essa sim destinada aos anjos) de que não são feitos. Aqui na terra, no céu, ou até no inferno das suas consciências, o que eles nunca deixarão de ser é perigosos. Gente fingida, que esconde a vida que teve, deixando que sobre aquela que agora levam flutue um bruaá de imaculadas pessoas impossível de sobreviver à realidade dos seus criminosos passados.  

Não me levem a mal, mas é superior à minha dignidade, ver tanto canalha ser tratado assim, por quem os desconhece, como cordeiros inocentes dos piores pecados da  vida. A minha apertada noção da relatividade (e da decência) humana, que a idade me tem vindo a acentuar cada vez mais, é uma escolha não negociável. Sou dos que acham que a paisagem humana que mostramos está incondicionalmente tatuada pelo nosso passado. Mais ainda quando são um embuste as qualidades humanas que hoje exibimos, e que, queiramos ou não, concorrem com a realidade. É uma pena, eu sei, mas praticar tai chi (como eu faço) não me confere, só por si, um rótulo de bondade universal.   

Há, que eu sei, muitas maneiras de ser solidário e de fazer o bem. É verdade que sim. Porém, a minha (assumida) incapacidade de bondade não contempla esta, de ignorar o mal só porque quem o cometeu se simula indefeso (um dia destes até vi um na TV, vestido de pop star, imagine-se bem, fazendo-se de vítima perante os milhões de circunstantes que furtou, como eu, ou como vocês que com paciência ainda aqui estão a ler-me), certamente na esperança de perdão pelos delitos que não pagou.

Afinal, sendo por isto também, não é apenas por isto que eu não personifico a bondade sem fim. É que o único símbolo de bondade que conheço está no coração, não nos encenados actos a que nos entregamos quando fazemos questão de parecer o que não somos, nem nunca seremos. Parvo, no caso que a mim me toca. Se é que me faço entender?! 


* Começa bem o ano, sim senhor, com tão perturbante viagem aos alinhavos da existência humana. Isto promete. 

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