Perguntam-me, por vezes, o que é
feito do G…, da N… ou do F…. Que não sei é a resposta que invariavelmente dou.
Não os perdi mas também não os trago comigo. Um pouco como se os tivesse
esquecido algures, num desvão da vida a que só o acaso me fará voltar um
dia, quem sabe? Então, mesmo sem que me peçam, eu lá acabo por explicar. Há
um lote de pessoas, e aqui lote é palavra que mente já que são apenas três ou
quatro, que dizendo-se meus amigos há muito me habituaram a olhá-los com aquela quase indiferença com que se olham os imperativos a que por obrigação
(ou por elegância, pouco importa) não se pode escapar. Depois de anos a fio em
que me procuraram no local onde sempre souberam poder encontrar-me, aquilo que
ficou não foi mais que isso mesmo. Ser procurado por eles. Então, lá chegados,
tudo o que tinham para me dizer (leia-se, fazer) era o relato, consubstanciado de amor-próprio, das suas
vidas, dos seus feitos e glórias (nunca das suas misérias). Uma hora, duas ou
três, em que jamais coube tempo para de mim saberem além daquilo que o meu
olhar lhes disse. E, mesmo isso, ofereci-lhes eu sem encargos e sem que alguma
vez o tenham perguntado ou lhes interessasse saber. Claro que não. Fazem-no
assim há anos. Postados no palco das suas vidas, usando-me como incondicional espectador.
Depois, bom, depois partem, sabendo (eles e eu) que hão-de de voltar de novo,
não importa quando, para nova exibição. É por isso que, sem nunca
ter conseguido explicar a mim próprio o que estive ali a fazer, ainda hoje me pergunto:
que nome dar a esta gente? Amigos? Amigos
não. Chamar-lhes assim, parece-me óbvio, ofendia os que realmente o são. Os
que, apesar de tudo, ainda são capazes de me acompanhar o cicatrizar das
varizes, o crescer do cabelo ou o cavar das rugas, tanto faz. Amigos é que não.
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