Volvidos
os quatro dias em que tive os fedelhos à minha guarda, o mais velho (6 anos de
gente), incomodado com umas inexpressivas dores de barriga, lá foi ao pediatra.
No
consultório – eu, ele e o pai – o seu diálogo com o médico retira-nos de cena e
dá-lhes a eles o palco.
Assim,
numa linguagem própria de quem já ‘apanhou’ mais dores de barriga pela frente
do que eu terei apanhado pingos de chuva, o doutor lá foi arrancando as
indicações que precisava:
- Onde
dói? Quando é que dói? Quando passa?
Como é que passa? – entre outras.
Então,
questionado sobre a ocasião em que terão começado as dores, o petiz lá explicou
que já duravam há quatro dias, desde que
os pais o haviam deixado, com o irmão, em casa dos avós (a minha, claro) e tinham
ido ‘dar uma volta’, aproveitando o feriado para recarregar baterias.
Aqui
chegados, já o clínico dava por
findo o exame de apalpação e todos os demais procedimentos a que recorrera como
forma de despiste do que seria o seu diagnóstico, pergunta-lhe ainda:
- Olha
lá ó João, e porque achas tu que tens tido estas dores de barriga?
Ao
que, ali mesmo e de imediato, todos nós ficámos a saber a real razão de ser da
maleita.
-
Acho que é porque nestes quatro dias, em casa dos meus avós, só tenho comido
porcarias. (sic)
E
foi assim que, humilhado pelo seu próprio neto e ridicularizado pelo terapeuta
(e pelo palerma do pai), o avô saiu dali a perguntar-se:
(Mas,
por que raio é que eu ainda aqui venho aturar estes três estupores?)
Finalmente,
esclarecido com evidência, como foi, o enigma das dores de barriga, ali explicadas à criança como ‘dores
normais quando se está a crescer’ acabou o doutor a recomendar-me (entre
dentes) que naquelas ocasiões usasse a ‘técnica do smartie’ (isto é, o vulgo placebo), que administrado com
o ritual apropriado (e a confiança inerente) se revelará um ‘medicamento’ 100% eficaz
em tais ‘mazelas’.
Claro
que hoje, dois dias decorridos sobre este episódio, ao entrar-me em casa onde
vinha passar umas horas (lanchar e jantar) enquanto os pais ultimavam as
compras de Natal ainda por fazer, a primeira coisa que tive o cuidado de dizer
ao catraio foi que tivesse cuidado para não comer as tais porcarias que lhe
faziam dores de barriga.
Então,
teve o ‘artista’ a especial elegância de me esclarecer em jeito de reparação do
mal:
-
Sabes avô, o que o médico disse foi que eu posso comer coisas que não sejam saudáveis
(panquecas, bolachas de Natal, sumos de fruta, caramelos, essas coisas assim)
pois as minhas dores de barriga são 'por estar a crescer'.
Enfim! Estou
a ficar velho, é o que é.
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