quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

estupor(es)

Volvidos os quatro dias em que tive os fedelhos à minha guarda, o mais velho (6 anos de gente), incomodado com umas inexpressivas dores de barriga, lá foi ao pediatra.

No consultório – eu, ele e o pai – o seu diálogo com o médico retira-nos de cena e dá-lhes a eles o palco.

Assim, numa linguagem própria de quem já ‘apanhou’ mais dores de barriga pela frente do que eu terei apanhado pingos de chuva, o doutor lá foi arrancando as indicações que precisava:

- Onde dói?  Quando é que dói? Quando passa? Como é que passa? – entre outras.

Então, questionado sobre a ocasião em que terão começado as dores, o petiz lá explicou que  já duravam há quatro dias, desde que os pais o haviam deixado, com o irmão, em casa dos avós (a minha, claro) e tinham ido ‘dar uma volta’, aproveitando o feriado para recarregar  baterias.

Aqui chegados,  já o clínico dava por findo o exame de apalpação e todos os demais procedimentos a que recorrera como forma de despiste do que seria o seu diagnóstico, pergunta-lhe ainda:

- Olha lá ó João, e porque achas tu que tens tido estas dores de barriga?

Ao que, ali mesmo e de imediato, todos nós ficámos a saber a real razão de ser da maleita.

- Acho que é porque nestes quatro dias, em casa dos meus avós, só tenho comido porcarias. (sic)

E foi assim que, humilhado pelo seu próprio neto e ridicularizado pelo terapeuta (e pelo palerma do pai), o avô saiu dali a perguntar-se:

(Mas, por que raio é que eu ainda aqui venho aturar estes três estupores?)

Finalmente, esclarecido com evidência, como foi, o enigma das dores de  barriga, ali explicadas à criança como ‘dores normais quando se está a crescer’ acabou o doutor a recomendar-me (entre dentes) que naquelas ocasiões usasse a ‘técnica do smartie’ (isto é, o vulgo placebo), que administrado com o ritual apropriado (e a confiança inerente) se revelará um ‘medicamento’ 100% eficaz em tais ‘mazelas’.

Claro que hoje, dois dias decorridos sobre este episódio, ao entrar-me em casa onde vinha passar umas horas (lanchar e jantar) enquanto os pais ultimavam as compras de Natal ainda por fazer, a primeira coisa que tive o cuidado de dizer ao catraio foi que tivesse cuidado para não comer as tais porcarias que lhe faziam dores de barriga.

Então, teve o ‘artista’ a especial elegância de me esclarecer em jeito de reparação do mal:

- Sabes avô, o que o médico disse foi que eu posso comer coisas que não sejam saudáveis (panquecas, bolachas de Natal, sumos de fruta, caramelos, essas coisas assim) pois as minhas dores de barriga são 'por estar a crescer'.


Enfim! Estou a ficar velho, é o que é.

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