Nesta
altura do ano chegam-me sempre convites para eventos a que não encontro razão
para ir. É verdade que são todos para comer. Sim é verdade. Ementas de luxo que
só por si deviam já justificar a maçada. Maminha, coxinha, cupim, picanha,
alcatra, costela de boi. Pelo meio, batata frita, rodelas de abacaxi, banana flambada,
feijão preto. Quase no fim, buffet de sobremesas, doces, frutas e queijos. Cafés e digestivos a terminar.
É o que quiseres, whisky, conhaque, outras bebidas, todas elas generosas. Todas
elas à discrição. Tenho a certeza que
vais gostar. E eu, não tão certo disso, a perguntar-me que espécie de favor
precisam. Que assédios me esperam. Gostas de um charuto, no fim? Um destes dias
havemos de ir à Bobadela. Ou ao Cais do Sodré, que é mais perto. Conheço uns
bares que vais adorar. Mulheres vorazes de prazer, sabes? Agora por isso, a ver
se não me esqueço, tenho lá para te trazer uma caneta que vais gostar. Num
estojo vermelho, lindo. Com um aparo que me disseram ser de ouro, já viste bem?
Pensei logo em ti quando me a ofereceram. Um dias destes trago-a. Ah, e também
trago uma peçazita para a tua mulher. De cristal. Da Boémia. Comprei no duty free de Los Angeles. É aqui que eu
lhes digo que não posso ir. Que tenho compromissos inadiáveis. O gato doente. O
cão em agonia. Os netos na hora de sair das AECs (Actividades de Enriquecimento
Curricular, para os leigos). Ou, quando já nada resulta. Que não gosto
daqueles sítios. Que só costumo comer em tascas. Tabernas escuras onde a
liberdade de dar um bom arroto, a chouriço assado, no fim, já depois dos figos
e das nozes e antes dos cafés, seja igual à certeza de que foi para só para
comer que lá fui. Não havia outras razões, por baixo da toalha de mesa, de
plástico, manhosa. Daquelas onde podemos pingar o vinho que quisermos que nunca
deixa nódoas. E por falar em nódoas, há alturas do ano em que as do atrevimento
são as que me vejo mais aflito para limpar.
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