segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

jantar(es)

Nesta altura do ano chegam-me sempre convites para eventos a que não encontro razão para ir. É verdade que são todos para comer. Sim é verdade. Ementas de luxo que só por si deviam já justificar a maçada. Maminha, coxinha, cupim, picanha, alcatra, costela de boi. Pelo meio, batata frita, rodelas de abacaxi, banana flambada, feijão preto. Quase no fim, buffet de sobremesas, doces, frutas e queijos. Cafés e digestivos a terminar. É o que quiseres, whisky, conhaque, outras bebidas, todas elas generosas. Todas elas à discrição.  Tenho a certeza que vais gostar. E eu, não tão certo disso, a perguntar-me que espécie de favor precisam. Que assédios me esperam. Gostas de um charuto, no fim? Um destes dias havemos de ir à Bobadela. Ou ao Cais do Sodré, que é mais perto. Conheço uns bares que vais adorar. Mulheres vorazes de prazer, sabes? Agora por isso, a ver se não me esqueço, tenho lá para te trazer uma caneta que vais gostar. Num estojo vermelho, lindo. Com um aparo que me disseram ser de ouro, já viste bem? Pensei logo em ti quando me a ofereceram. Um dias destes trago-a. Ah, e também trago uma peçazita para a tua mulher. De cristal. Da Boémia. Comprei no duty free de Los Angeles. É aqui que eu lhes digo que não posso ir. Que tenho compromissos inadiáveis. O gato doente. O cão em agonia. Os netos na hora de sair das AECs (Actividades de Enriquecimento Curricular, para os leigos). Ou, quando já nada resulta. Que não gosto daqueles sítios. Que só costumo comer em tascas. Tabernas escuras onde a liberdade de dar um bom arroto, a chouriço assado, no fim, já depois dos figos e das nozes e antes dos cafés, seja igual à certeza de que foi para só para comer que lá fui. Não havia outras razões, por baixo da toalha de mesa, de plástico, manhosa. Daquelas onde podemos pingar o vinho que quisermos que nunca deixa nódoas. E por falar em nódoas, há alturas do ano em que as do atrevimento são as que me vejo mais aflito para limpar.  

Sem comentários: