sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

culpas que não se enterram

Primeiro, agachada no chão, ajeita a terra em volta com a vassoura de nylon, em aconchegos de cobertor. Depois, muda a água da jarra mais murcha que as flores de lótus que trouxera do quintal, no mês passado. Agora, já passa a lápide a pano, aqui e li molhado com borrifos de detergente. Por fim, com um pincel, aviva o relevo dos anjos, por baixo do nome. Afasta-se então, dois passos atrás, a contemplar o trabalho feito. Ainda faltam três quartos de hora para o próximo autocarro. Olha em redor a fazer tempo. E comparações. Há gente muito desmazelada, conclui, extraindo ao desleixo das outras campas a condenação de que se acha liberta.  A censura que lhe alivie o sentimento de culpa. Contudo, talvez porque não o queira recordar, comporta-se como se tivesse esquecido que enquanto a mãe foi viva nunca lhe deu a atenção que agora destina ao jazigo. Teve razões para isso. É o indulto com que protege a consciência. Escondeu-se dela durante anos. Declinava com educação a cortesia dos convites para almoços. E, quando não inventava desculpas, servia-se dos amuos com que se mostrava ofendida das coisas que ela lhe dizia.  Conseguiu, quase sempre assim, evitar expor-lhe à vista a existência infeliz que levava, à qual, diga-se,  também não deram grande ajuda os mal sucedidos casamentos que ficaram pelo caminho. Afinal, quem sabe, talvez temesse apenas que ela tivesse razão.  Agora, já a vassoura e o pincel também passados a água e detergente, enquanto tudo é arrumado no saco do Lidl, um último aflorar de dedos sobre a pedra fria da campa. Já só faltam vinte  minutos para a carreira. Não se pode distrair. Ainda está longe do portão. Quando se desse conta estava na hora. A mãe também teve muita culpa, ensaia pelo caminho, em jeito de justificação, a voltar-se para trás, num último olhar, já distante, a conferir se tudo no sítio. Ela gostava muito do Maciel, recorda. Nunca se conformou com o seu primeiro divórcio. Depois, aos outros, foi o ignorar que se sabe. O pedir a Deus que não fossem todos ainda piores. E no entanto foram. Pontual o autocarro, pensou ela ao vê-lo fazer a curva, pouco antes de se imobilizar  na paragem. No mês passado atrasou-se. Já por isso, desta vez deixou o pão encomendado. No entanto, com sorte, talvez ainda apanhe o talho aberto e ainda compre a dobrada para o almoço de amanhã. Há tantos dias que me anda a apetecer dobrada. Já na estrada, num olhar sobre os muros altos do cemitério, veio-lhe de novo à memória o desleixo de algumas das campas. Há realmente gente muito desmazelada. Alguns até (e também) com os mortos. Louvado seja.  

Sem comentários: