Primeiro, agachada no chão,
ajeita a terra em volta com a vassoura de nylon, em aconchegos de cobertor.
Depois, muda a água da jarra mais murcha que as
flores de lótus que trouxera do quintal, no mês passado. Agora, já passa a
lápide a pano, aqui e li molhado com borrifos de detergente. Por fim, com um
pincel, aviva o relevo dos anjos, por baixo do nome. Afasta-se então, dois
passos atrás, a contemplar o trabalho feito. Ainda faltam três quartos de hora
para o próximo autocarro. Olha em redor a fazer tempo. E comparações. Há gente
muito desmazelada, conclui, extraindo ao desleixo das outras campas a
condenação de que se acha liberta. A
censura que lhe alivie o
sentimento de culpa. Contudo, talvez porque não o queira recordar,
comporta-se como se tivesse esquecido que enquanto a mãe foi viva nunca lhe deu
a atenção que agora destina ao jazigo. Teve razões para isso. É o indulto com
que protege a consciência. Escondeu-se dela durante anos. Declinava com educação
a cortesia dos convites para almoços. E, quando não inventava desculpas,
servia-se dos amuos com que se mostrava ofendida das coisas que ela lhe dizia. Conseguiu, quase sempre assim, evitar
expor-lhe à vista a existência infeliz que levava, à qual, diga-se, também não deram grande ajuda os mal sucedidos
casamentos que ficaram pelo caminho. Afinal, quem sabe, talvez temesse apenas
que ela tivesse razão. Agora, já a
vassoura e o pincel também passados a água e detergente, enquanto tudo é arrumado
no saco do Lidl, um último aflorar de dedos sobre a pedra fria da campa. Já só
faltam vinte minutos para a carreira. Não
se pode distrair. Ainda está longe do portão. Quando se desse conta estava na
hora. A mãe também teve muita culpa, ensaia pelo caminho, em jeito de
justificação, a voltar-se para trás, num último olhar, já distante, a conferir se
tudo no sítio. Ela gostava muito do Maciel, recorda. Nunca se conformou com o seu
primeiro divórcio. Depois, aos outros, foi o ignorar que se sabe. O pedir a
Deus que não fossem todos ainda piores. E no entanto foram. Pontual o autocarro,
pensou ela ao vê-lo fazer a curva, pouco antes de se imobilizar na paragem. No mês passado atrasou-se. Já por
isso, desta vez deixou o pão encomendado. No entanto, com sorte, talvez ainda
apanhe o talho aberto e ainda compre a dobrada para o almoço de amanhã. Há
tantos dias que me anda a apetecer dobrada. Já na estrada, num olhar sobre os muros
altos do cemitério, veio-lhe de novo à memória o desleixo de algumas das campas.
Há realmente gente muito desmazelada. Alguns até (e também) com os mortos.
Louvado seja.
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