Tão
bonita a renda do naperon. A minha mãe a fazê-la com impiedosa precisão. Levou
anos naquilo. Um milímetro ou dois por dia. Anos a fio (literalmente).
E
afinal,
dás tão pouco valor a estas coisas que até me
faz confusão. Já te ocorreu que qualquer pessoa dotada de bom gosto e alguns
(ainda que poucos) valores básicos percebe a fortuna que aqui está?
Tão
poucas as iniciais ‘RM’ para tanto que me dizem. E eu de olhos semifechados,
perdidos algures entre um risco e dois pontinhos que me fizeram companhia. Meia
hora (talvez mais) a tentar ouvir o som dos pensamentos que aquele ruído impedia
que chegasse até mim.
E
afinal,
tivesse
voz o sofrimento e aquele seria o seu som.
Tão
escassa a vontade de me dar quando o que sobra é medo.
E
afinal,
à
medida que a escuridão dilui, a certeza de que nem as mãos adiante do
pensamento serão capazes de me proteger de todas as inesperadas desgraças.
Tão
curioso o que já me fizeram sentir pessoas por cuja vida passei e de quem um
dia me afastei. Como quem se perde numa estrada sem destino. Muitas delas a vê-las ao longe, sem perceber se é saudade o
nome certo desse querer saber o que delas é feito, ou, se ao contrário, não é
maior o desejo de fugir de tão negro horizonte.
E
afinal,
olhando
bem, perante tão triste espectáculo, a resposta a chegar – era anseio. Uma
vontade imperiosa de as apagar da memória que alguma vez tenham ocupado.
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