terça-feira, 9 de dezembro de 2014

por acaso, por artes do destino

Tão bonita a renda do naperon. A minha mãe a fazê-la com impiedosa precisão. Levou anos naquilo. Um milímetro ou dois por dia. Anos a fio (literalmente).  

E afinal,

 dás tão pouco valor a estas coisas que até me faz confusão. Já te ocorreu que qualquer pessoa dotada de bom gosto e alguns (ainda que poucos) valores básicos percebe a fortuna que aqui está?

Tão poucas as iniciais ‘RM’ para tanto que me dizem. E eu de olhos semifechados, perdidos algures entre um risco e dois pontinhos que me fizeram companhia. Meia hora (talvez mais) a tentar ouvir o som dos pensamentos que aquele ruído impedia que chegasse até mim.

E afinal,

tivesse voz o sofrimento e aquele seria o seu som.

Tão escassa a vontade de me dar quando o que sobra é medo.

E afinal,

à medida que a escuridão dilui, a certeza de que nem as mãos adiante do pensamento serão capazes de me proteger de todas as inesperadas desgraças.

Tão curioso o que já me fizeram sentir pessoas por cuja vida passei e de quem um dia me afastei. Como quem se perde numa estrada sem destino. Muitas delas  a vê-las ao longe, sem perceber se é saudade o nome certo desse querer saber o que delas é feito, ou, se ao contrário, não é maior o desejo de fugir de tão negro horizonte. 

E afinal,


olhando bem, perante tão triste espectáculo, a resposta a chegar – era anseio. Uma vontade imperiosa de as apagar da memória que alguma vez tenham ocupado. 

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