domingo, 18 de janeiro de 2015

um arrepio de solidão

É na flor dos seus sessenta anos que aqui a trago. Vive só, sem rendimentos de qualquer natureza que não sejam os magros trocos que sobram da pensão da mãe. Isto, é claro, depois de pago o lar onde a velhinha senhora vegeta há anos. É, pois, entre a sua humilde casa e o lar que acolhe a mãe, numa acamada e profunda dependência, que decorre a sua vida. Acorda só e é só que se há-de deitar. Tudo o mais é esse nada que extrai da solidão em que vive. As tardes passadas no lar à cabeceira da mãe a quem dá o almoço, e até o lanche, às vezes. Depois, de volta a casa, faz de metro ou a pé o trajecto entre os dois locais em que acontece o seu viver. Um brilho triste e húmido a cobrir-lhe os olhos ao mesmo tempo que na sua frente um pombo esvoaça sem rumo. Sinais de uma esperança onde nada acontece, a extinguir como chama soprada pelo vento (que tudo leva) os momentos do dia que lhe faltam viver, entre os quais já só cabe vazio. Já em casa, um telefonema a uma amiga que lhe assegure duas horas de conversa. (Quando o telefone toca e lhe percebo a voz é um grito que pede que o escutemos aquilo que melhor se ouve.) Depois, na companhia das novelas da noite, o esperar que a dor do isolamento lhe entorpeça mais a mente que o corpo e a leva à reconfortante modorra do sono.
Lá para trás, no que foram uns esparsos riscos a cores com que a vida  lhe coloriu uns meses de pobreza afectiva, ficou um namoro com um canalha que tantas vezes a abandonou e a desprezou quantas as que a procurava semanas depois. Pedindo desculpa, dizendo-se arrependido e encurtando tempo para o dia em que, de novo, havia de a deixar. Assim, sem mais. Quer dizer, sem mais não: trocando-a por outra. Que é como diz, dando à história que vos relato o desfecho a que já todos estamos habituados. Ela só, sem ninguém. Ele já envolvido na nova relação, a continuar a tentar atraí-la para vértice do triângulo que certamente lhe agradaria formar. E é daqui, desta triste narrativa que, talvez por acaso ou por outras ocultas razões, sempre se sabe bem como começam mas nunca se imaginam como acabam, que todos os santos dias parte esta alma para mais um dia. Umas vezes em busca de companhia e outras apenas para fugir à solidão. 
Contudo, o que a mim me preocupa (com a razão que espero que o futuro não se encarregue de confirmar) é a quantidade de vezes que já lhe ouvi dizer: só estou à espera que ela morra. 

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