segunda-feira, 27 de outubro de 2014

a vida privada já não é o que era.

Nos anos oitenta se perguntassem a alguém o que achava de uma aplicação informática através da qual fosse possível ver o que pensava, avaliar a sua imaginação, os seus gostos pessoais, expor a sua intimidade, os seus relacionamentos, conhecer as suas limitações, a sua criatividade ou os seus conhecimentos, muito pouca gente aceitaria integrá-la, tenho a certeza. 
Hoje, trinta anos decorridos, já temos as redes sociais e o contraste passou a ser feito por oposição com aqueles que não usem as ditas aplicações, seja para mostrar o rabo ou para espiolhar a vida íntima dos outros, seja batendo palmas, soltando gostos a torto e a direito, ou ali ir publicando vulgaridade em formato ‘peço-desculpa-mas-não-tenho-ideias-próprias’.
Não me surpreende, confesso. O que ontem era mau hoje é muito bom. E, se há matéria em que a evolução se espraiou por piores terrenos, esta, do advento das novas tecnologias, nela incluindo a própria TV que nos entra pela porta dentro - paga a preços que deviam obrigar à qualidade - passou a ser do mais reles e inferior que há.
Em termos de audiovisual o conceito de produção nacional esgota-se hoje no mais nojento (leia-se asqueroso) dos programas de voyeurismo. Massificado em canais (e canais) cujos horários nobres são ocupados por milhões de espectadores, a espreitarem para dentro de uma casa onde o vazio é preenchido por gente ainda mais vazia, ordinária e sem valores. Gente desprezível, escolhida a dedo, que nós, cá fora, mostramos aos nossos filhos, senão para que eles aprendam a preferir o que é nosso, porque a alternativa não é melhor. E é assim quando a opção, nos canais ali ao lado, designados por interactivos, o que passa é algo que não se esgota na má qualidade, a que ouvimos chamar stand-up-qualquer-coisa. Que é como quem diz, programas de néscios, que se intitulam humoristas, feitos para néscios, incapazes de aferir e entender que o desnível de cultura a que estão a ser submetidos há muito baixou do zero e passou a ser cotado a vermelho, por números negativos.
Esta sim, é a linha que divide o respeito das instituições pela educação e cultura de um povo, pelas suas vidas privadas, atraídas ao engodo da exposição a qualquer preço, indiferente à sua estupidificação. . 
Dos anos oitenta para cá, um tsunami de modernidade levou à sua frente a fatia da população que então se dizia educada, culta, informada, esclarecida. À vez, todos juntos, ou cada um por si, foram forçados a ficar indiferentes, e desinteressados. Ou, se preferirem, numa palavra ainda mais exacta – tacanhos.  O que os define, descurando as marcas da roupa ou as lojas onde a compram, o modelo do carro ou os locais das férias, é que são agora uma imensa maioria, no seio da qual perderam expressão as famílias – avós, pais, filhos, não interessa – capazes de chegar ao fim do mês com mais noites de serão a ler um livro (ler o quê?! o que é um livro!? livro de quê!?), ou em que foram ao teatro, ou ao cinema, do que aquelas em que ficaram a ver o nojo em exibição ou  a trocar postagens que outros fizeram.

Eis, pois, o esplendor da vida privada no ano 2014. É entrar, é sentar, a TV está ligada, o portátil também. Venham daí, assistir há verdadeira contradição no seio do entretenimento. Aprender a mediocridade.

Como já alguém disse: é como se o mundo girasse e nós parados. À espera do milagre.  Ou, talvez, quem sabe, da aplicação que nos formate, de bestas em um-bocadinho-menos-estúpidos ou, ainda com mais sorte, outra vez em seres racionais. 

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