quinta-feira, 23 de outubro de 2014

é, até mais ver, a maior quantidade de desilusão que cabe numa só hora

Sim, eu sei, bem podia ter escolhido outra coisa. Ideia parva esta de ir a uma terça-feira, logo às dez da manhã, a uma bodega de uma livraria. Acabo a frase a já tenho a consciência a justificar-se: tinhas dito que o livro saía  hoje. Eu sei, é verdade, foi por isso. Mas, nem assim, não desisto, não deixou de ser uma ideia tola. Até por que, lá chegado, bem podia ter apontado ao escaparate das tecnologias. É lá que passo tempos sem fim, a admirar todos os gadgets de ponta, cheios de utilidade, ainda que nenhuma me seja proveitosa.   Aí sim, era garantido que uma hora ou duas. Mas, não. Um café, um rissol e três livros. Sim, disse três, o outro não conta que esse levo-o mesmo assim, sem ver, seja mau ou bom. Como se só a capa me interessasse. E de facto, parece-me bem, estou na dúvida até… Pois se acho que já sei a história, ainda sem a ter lido. Vejamos. É só a capa, comprova-se. Vai na mesma.
(Se leram isto até aqui e ainda não perceberam ao que me refiro este é o momento de desistirem. Esqueçam o resto. Continuem a aperfeiçoar a leitura. A praticá-la. Quem sabe um dia consigam entender mais do que  as legendas dos filmes da tarde de domingo. Já é um bom treino. Ler blogs também. Mais ainda se nada soubermos de quem escreve.)

Os outros não. Há que tomar-lhes o peso.  Primeiro uma passagem a ver se há lastro que me afunde. O café saiu uma merda. Deve ter torrado mais seis meses do que devia. É sempre isto. Não aprendo. O rissol quase igual. A crosta não aderiu à massa que, por vingança (tenho a certeza), não aderiu ao recheio. Sim, eu sei, podia ter escolhido outra coisa. E já o primeiro livro de lado. Outra bodega igual ao café e ao rissol. Nem penso duas vezes e só paro  na página 20 do segundo. O crítico diz dos canais de TV interactivos o que eu seria capaz de dizer do vinagre, sobretudo se estivesse estragado. Reconheço-lhe razão. Toda. Ainda assim, o tema é mau demais, desisto do livro como há muito desisti de ser espectador dos ditos. Ao terceiro peguei apenas com uma mão. A outra no copo de água, disposto a levá-lo à boca. Ao meu lado a Lucy e o Heitor, acabados de sentar,  cada um ao seu telefone, comunicam com os seus interlocutores como se o fizessem de viva voz. Sem telefone. Eles aqui. Os outros na Ilha da Madeira. Este é bom, a escrita cativa, ouve-se o mar de que a autora fala. Vai também. Levo os dois. Já não suporto ouvir o Heitor. Menos ainda a voz da Lucy. Parecem saídos de um concurso de drag queens. Afinal, só percebi agora, falam para o Brasil, S. Paulo. É ainda mais longe. Estão justificados os gritos. Vou pagar. Valeu-me o copo de água para engolir tanta desilusão junta numa só hora. É um acontecimento. Ou, então, é o nada de que sou feito a estranhar tal crédito de sorte. Principalmente agora, que tenho andando tão descoberto dela. Sim, eu sei, bem podia ter escolhido outra coisa. Siga a procissão.  

Sem comentários: