Sim, eu sei, bem
podia ter escolhido outra coisa. Ideia parva esta de ir a uma terça-feira, logo
às dez da manhã, a uma bodega de uma livraria. Acabo a frase a já tenho a consciência a
justificar-se: tinhas dito que o livro saía
hoje. Eu sei, é verdade, foi por isso. Mas, nem assim, não desisto, não
deixou de ser uma ideia tola. Até por que, lá chegado, bem podia ter apontado
ao escaparate das tecnologias. É lá que passo tempos sem fim, a admirar todos
os gadgets de ponta, cheios de utilidade, ainda que nenhuma me seja proveitosa.
Aí sim, era garantido que uma hora ou duas.
Mas, não. Um café, um rissol e três livros. Sim, disse três, o outro não conta
que esse levo-o mesmo assim, sem ver, seja mau ou bom. Como se só a capa me
interessasse. E de facto, parece-me bem, estou na dúvida até… Pois se acho que
já sei a história, ainda sem a ter lido. Vejamos. É só a capa, comprova-se. Vai
na mesma.
(Se leram isto até
aqui e ainda não perceberam ao que me refiro este é o momento de desistirem.
Esqueçam o resto. Continuem a aperfeiçoar a leitura. A praticá-la. Quem sabe um
dia consigam entender mais do que as
legendas dos filmes da tarde de domingo. Já é um bom treino. Ler blogs também. Mais
ainda se nada soubermos de quem escreve.)
Os outros não. Há
que tomar-lhes o peso. Primeiro uma
passagem a ver se há lastro que me afunde. O café saiu uma merda. Deve ter
torrado mais seis meses do que devia. É sempre isto. Não aprendo. O rissol
quase igual. A crosta não aderiu à massa que, por vingança (tenho a certeza),
não aderiu ao recheio. Sim, eu sei, podia ter escolhido outra coisa. E já o
primeiro livro de lado. Outra bodega igual ao café e ao rissol. Nem penso duas
vezes e só paro na página 20 do segundo.
O crítico diz dos canais de TV interactivos o que eu seria capaz de dizer do
vinagre, sobretudo se estivesse estragado. Reconheço-lhe razão. Toda. Ainda
assim, o tema é mau demais, desisto do livro como há muito desisti de ser
espectador dos ditos. Ao terceiro peguei apenas com uma mão. A outra no copo de
água, disposto a levá-lo à boca. Ao meu lado a Lucy e o Heitor, acabados de
sentar, cada um ao seu telefone,
comunicam com os seus interlocutores como se o fizessem de viva voz. Sem
telefone. Eles aqui. Os outros na Ilha da Madeira. Este é bom, a escrita
cativa, ouve-se o mar de que a autora fala. Vai também. Levo os dois. Já não
suporto ouvir o Heitor. Menos ainda a voz da Lucy. Parecem saídos de um concurso
de drag queens. Afinal, só percebi agora, falam para o Brasil, S. Paulo. É
ainda mais longe. Estão justificados os gritos. Vou pagar. Valeu-me o copo de
água para engolir tanta desilusão junta numa só hora. É um acontecimento. Ou,
então, é o nada de que sou feito a estranhar tal crédito de sorte.
Principalmente agora, que tenho andando tão descoberto dela. Sim, eu sei, bem
podia ter escolhido outra coisa. Siga a procissão.
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