É
raro o mês em que não almoçamos duas ou três vezes. Talvez já tenha até havido
alguns em que mais. É assim há anos. Não se conhecem variações. Já eramos ambos
adultos quando o destino nos cruzou. Ficámos cúmplices desde aí. De lá para cá
o tempo pouco mais tem feito do que consolidar sintonias. Por vezes pergunto-me
se serei eu que o vejo como o juiz que me julga, ou se será ele que me toma por
conselheiro. Certo é que nem um nem outro fazemos a desfeita de ignorar os pareceres
e as opiniões que partilhamos. Dele eu admiro a sua fria inteligência e a firmeza,
a determinação com que se empenha no que há que fazer (e faz), sem deixar para
depois. Para além disso há também um verbo – basta esse – que o descreve:
contemporizar. A sua vida tem sido feita disso. Contemporiza nem seja a seu
desfavor, pois há coisas que não têm preço. A paz (e a alusão que a incorpora)
é de todas a que lhe é mais cara. É por isso, eu sei, que trocaria sem hesitar,
dez amigos dos muitos que lhe pedem a bênção, por umas horas no deserto
(metáfora do sossego absoluto). De mim, ele admira, suspeito eu, muito mais que
ao resto e à falsa modéstia (não sei onde é que eu já li isto), a alucinada
estreiteza persuadida duma estatura inexistente. Seja como for, é daqui,
desta imparidade admirativa, que resulta o nosso volume. Há uns anos, quando
começámos por nos juntar, eramos só os dois, hoje somos umas centenas. Eu e ele
presentes, os outros não.
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