Há uns anos, quando comecei a fazê-lo, achava-me
único neste observar de troça a que se submetia a exposição social (tal como as
peneiras ou a cretinice) dos asnos a quem eu apontava o suco gástrico deste
passatempo que mais tarde vi ser definido como ‘a minha escrita’. Porém, pouco
tempo depois já me confessava incomodado pelo exagero em que tendia a cair
tantos eram os alvos que inesperadamente se punham a jeito, aliás, como bem define
aquele escritor que eu passo a vida a citar (esse que vocês sabem): «Deus deve gostar imenso dos patetas
porque não se cansa de fazê-los».
Depois, quando já esperava que o tempo e a própria aprendizagem que até
os tontos (e os porcos também) vão fazendo com o chafurdar no seu próprio
esterco, fui-me apercebendo que, longe de melhorar, a saga adquiria apetites de
crescimento. Os néscios não aprendem a sonhar noutros formatos nem de outras
maneiras e usam a fantasia (associada à estupidez em muitos casos) para se revelarem.
O resto (entenda-se por resto esta apetência de análise crítica), advém da
visibilidade com que, envaidecidos como só os ignorantes sabem sentir-se, se
gostam de mostrar, aqui e ali, por todo o lado, nas mais insólitas condutas,
nos mais merdosos comentários.
Portanto, ao invés de mudar o tércio dos meus disparos, o que tem vindo
a acontecer, malgrado o esforço enorme que já faço por me abstrair do que de
pior há entre os piores, é que são agora muitos os que até começaram por me
querer modelar a mão, a trazer até mim o desempenho de alguns desses tops da
mediocridade.
Assim, não raro me passou a acontecer ser confrontado com perguntas
como: já viste o que escreveu fulano de tal? Tu leste o comentário de beltrano?
Isto, quando não é mesmo um link ou um destaque, já acompanhado da observação
de quem o leu e logo ali achou que enviar-mo era favor de quem chega fogo à
pólvora. De quem sabe que o espectáculo está no fogo-de-artifício, não no seu
preparo.
Ora, estou eu aqui com tudo isto para vos vir agora apontar um desses
casos, de anunciadora estupidez, cuja
estrada até ele me foi aberta por um familiar, que, ao destinar-me uma das
perguntas ali acima reveladas, terá achado (tal como eu), que só por avançado
estado de ostentação, portanto insusceptível de deixar passar em claro, se
podia tecer tal alarvidade.
Com efeito, mesmo
sabendo que o faz no seio de um espaço (pouco mais que uma aldeia), onde os infoexcluídos constituem maioria, onde
só um palerma com tão pouca sobriedade
pode ser visto como gente de saber, não posso deixar de trazer à tona um
tal exemplo de pesca nas profundezas da imbecilidade.
Pois, trata-se o caso de uma banal frasezita,
acompanhada de imagem, onde expressa a
tola criatura que a editou a sua admiração pelas columbófilas aves e o seu
saber voar alto (imagine-se a altura a que voa o anormal), que mistura com a
sua generosidade
(quiçá senão grandeza) de ser(em) também capaz(es) de colher migalhas do chão.
Com franqueza, incapaz sinto-me eu de me contentar com o
parecer indignado de quem me trouxe mais esta pérola – o autor é uma fonte de
ultrajes desta natureza – e mesmo que eu
acredite que os faça todos por manifesta tacanhez cultural e deslocada cagança
de presunçoso, não consigo conter a pergunta:
que mensagem pode querer passar a alimária que escreve algo assim?
Claro que, vinda de quem vem, não me é fácil
encontrar palavras com que diga da minha indignação por tão pouca (e tão
limitada) inteligência. Mas, apesar disso, e ainda que descuradas outras piores
posições, da mesma mão saídas, cuja condenação a seu tempo também aqui libertei,
não sou capaz de deixar de pensar no que será o comportar na vida de um
exemplar humano destes. E, nem mesmo ignorados todos os ‘diz-que-disses’ de que
há conhecimento, me sobram dúvidas que só um pirilampo será capaz de o imitar. É que não é
fácil alternar entre a completa escuridão e um discreto piscar que mal se vê.
Só mesmo no breu da noite, quando misturado com os outros procure passar
pelo que jamais será.
Por tudo o que foi dito, meus caros, recomendo
muito cuidado, olhem que esta coisa do escárnio pega-se.
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